20 de dezembro de 2009

Sociedade vs Governo‏

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Há dias ouvi alguém falar que tudo o que a sociedade tinha de errado era reflexo do Governo que temos. A desonestidade, corrupção, criminalidade e tudo o que apelidamos de desgoverno é culpa do governo. Eu mostrei-me totalmente em desacordo! Na minha opinião é exactamente o contrário: Para mim os nossos governantes são exemplares genuínos e paradigmáticos da nossa sociedade, todos eles portuguesinhos de gema, ou seja, o Governo é reflexo da mentalidade da nossa sociedade.

Senão vejamos...

Um governante ou qualquer gestor público (ou privado) recém-eleito (ou nomeado) que assume uma pasta qualquer trata logo de nomear pessoas por critérios de confiança, amizade e ainda por hierarquia de cunhas por saldar...

O cidadão comum quando perde o seu emprego serve-se sempre dos amigos para tentar voltar ao activo... "epa um gajo está mesmo à rasca não me arranjas nada lá?...sério? arranjas? Boa! fico a dever-te uma... se precisares de alguma coisa já sabes..."

O português quando vai à Repartição de Finanças ou ao Centro Regional da Segurança social estica sempre a cara para ver se há alguém conhecido atrás do balcão que lhe safe da fila... nós até temos um nome carinhoso para estes tipos de favorecimento... cunhas!!!
Se vai à inspecção com um carro que não respeita as mínimas regras de segurança, o truque é deixar uma nota grande em cima do banco de forma a tentar o lado corruptível de alguém...

A verdade é que todos temos um chico-esperto dentro de nós que se manifesta tanto na fila para comprar pão como no cadeirão de onde se administra o país.

Outra...

Divida directa do Estado igual a 130.235 milhões de euros, ou seja, 80% do PIB? Porquê tanto endividamento? O futuro das gerações vindouras está hipotecada...

O cidadão comum não pensa duas vezes na hora de pedir empréstimos para comprar plasmas, automóveis, computadores ou para ir de férias... Se o vizinho vai para as Seicheles eu vou para a Tailândia... Se o meu colega de departamento tem um audi A3 ou vou comprar um A8... como é que pago? logo se vê... ! (os descendentes pagam).

O Governo pede dinheiro emprestado para comprar submarinos, construir mais auto-estradas, salvar bancos, pagar dívidas de governos anteriores, construir aeroportos e a rede TGV... Se a Espanha e quase toda a Europa tem TGV nós também temos de ter para não ficarmos para trás! Como é que vamos pagar? O próximo governo que pense nisso...!

Seja num T3 na Cova da Piedade ou nos gabinetes do Palácio de S. Bento, todos vivem acima das suas posses.

Um governante ou quadro superior recém eleito ou nomeado quando toma posse trata logo de trocar a viatura que herdou da anterior gerência por um modelo mais moderno e mais caro...

Quem não é vaidoso com a sua montada que atire a primeira pedra (eu vou atirar porque não tenho carro sequer...livrei-me dele). Em Portugal a maioria das pessoas interiorizou que o status social mede-se pela cilindrada e modernidade da viatura que se tem... Não há nenhuma esquina ou tasco onde não exista um grupo de pessoas a falar de carros, a desejar ter este ou aquele... Se esta gente chegar a algum órgão de soberania tratará logo fazer uma encomenda de novos modelos da Mercedes... era só o que faltava andar com o modelo que saiu em 2008 e que toda a gente já tem!

Orçamentos de Estado entregues em cima da hora... Orçamentos Rectificativos, Orçamentos Suplementares... Não vivêssemos nós numa cultura do "em cima da hora", do desenrasque e do aproximadamente tirado a olho. Não há nada que não se resolva com cuspo e um bocado de cordel de sapato... ainda hoje na passadeira cedeu-me passagem um senhor que tinha o para-choques frontal preso com fita-cola.

Justiça não funciona bla bla bla... muitos processos por resolver e em risco de prescrição, a justiça não resolve nada bla bla bla... o crime compensa bla bla bla... Se todas as comadres soubessem resolver as suas birras e malcriadice localmente e de forma civilizada os acessos para os tribunais não estariam tão congestionados... O melhor exemplo disto é o caso daqueles dois ex namorados que ganharam o euro-milhões e que nacionalizaram a sua infantilidade.

Burocracia, lentidão dos serviços do Estado? Conheço poucas pessoas que não saem para tomar café ou fumar em pleno horário de trabalho.

Malcriadice entre deputados no Parlamento? Não é nada a que não estejamos habituados a ver e a ouvir pelas nossas estradas, nos transportes públicos com pessoas mal educadas a empurrarem-se e a ofenderem-se umas às outras, a não darem assento aos velhotes ou a grávidas... automobilistas que não cedem passagem nas passadeiras...

Muitas cadeiras vazias nas discussões quinzenais? Deputados a dormir e a bocejar  enquanto se discute o estado da nação? Onde estavam os 40% que não foram votar nas últimas legislativas? No sofá? na praia ? no centro comercial? Ou na cama a dormir e a bocejar enquanto nas urnas se decidia o futuro da nação?

Governo não se preocupa com os pobres nem velhotes? E tu preocupas-te? Costumas dar um simples sorriso aquele rapaz pele-e-osso que anda no Metro de Lisboa a cantar e a pedir esmolas? Costumas participar em acções de sensibilização social? Participas em eventos de solidariedade social? Alguma vez na vida fizeste voluntariado? Vais ao lar visitar os teus pais ou avós que institucionalizas-te por falta de tempo e paciência para os aturar?

Moral...

Não é "Sociedade vs Governo" nem "Sociedade e Governo"... é mais "Sociedade no Governo"! De nada vale votar no partido da oposição ou pensar em assassinar o Primeiro para meter lá outro... Eduquem bem os vossos filhos, sejam bons exemplos para eles (não basta subir para o pedestal e discursar moralismos, as crianças não fazem o lhes dizem para fazer mas sim o que vêem os outros fazer) e talvez daqui a duas ou três gerações...

Os visitantes anónimos do meu blog

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Dando continuidade à minha actividade de investigador nas horas vagas e arrematando o raciocínio iniciado com o MSN, passando pelo hi5, venho agora apresentar o derradeiro ensaio e encerrar esta trilogia com:

Os visitantes anónimos da minha página.

Após uma exaustiva análise estatística ao tráfego deste blog posso afirmar que no que diz respeito à problemática em estudo verificam-se dois tipos de anóninos: os que conheço e os que não conheço.

Os que conheço são:

- Os que comentam e não assinam (por esquecimento, vergonha ou por outra desculpa hilariante)  mas que eu sei quem são por serem facilmente identificáveis pela escrita, erros de gramática, vocabulário irónico, bem humorado, enfim, um conjunto de predisposições inolvidáveis que sempre fizeram parte da nossa relação...
- Os que passam, não largam nenhum comentário no blog mas fazem questão de me enviar um sms ou mensagem no msn para que eu tenha conhecimento (onde quer que esteja e na hora) que andaram a ler-me (gosto de vocezes pa!).

Quanto aos anónimos que não conheço... os numbaros, a estatística e o meu olhar de falcão-peregrino identificaram:

- Os que entram aqui por terem clicado em links que tenho no messenger, olá5, myspace, facebook e assinaturas em forums onde participo... alguns enviam-me mp's nesses sítios mas a maioria entra e sai anonimamente permanecendo assim para todo o sempre...
- Os que vem com ideia de roubar descaradamente (o contrário de furtar devidamente) o que escrevo, mas eu não me preocupo com isso porque um dos meus lemas de vida é "dai de graça que que de graça vos foi dado"... encaro esse tipo de plágio da mesma forma como encaro alguém que diz estar de acordo comigo...
-Os mentecaptos do nível da criatura (um tal de Pedro) que comentou A nossa vida é uma geometria ...
-E, por fim, os spambots que me prometem mundos e fundos sem fim e sem muito esforço.


Breath easy.

:)

15 de dezembro de 2009

Marcha pela Erradicação da Pobreza e Exclusão Social

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No próximo dia 17 de Dezembro, às 19.30 terá lugar a Marcha pela Erradicação da Pobreza e Exclusão Social.


Ponto de Encontro: Praça de Luís de Camões (Lisboa – Chiado)

Desfile:
Chiado, Rua Garrett, Rossio e Rua Augusta. Nova concentração no Arco da Rua Augusta - junto à réplica da laje da Praça do Trocadero:
- Declamação da “Ode do Pão” (de Pablo Neruda), por vários actores/artistas
- Minuto de silêncio em homenagem às vítimas da fome e exclusão social
- Compromisso público dos presentes pela Erradicação da Pobreza e Exclusão Social – assinatura de um mural

Festa de encerramento
Tenda do Pão de Todos, Para Todos – Martim Moniz.


Esta Marcha será a primeira de muitas iniciativas que se prolongarão durante o próximo ano para dar visibilidade pública a estas questões e alertar para a necessidade de as ter em conta nas grandes decisões neste país e no mundo.

A Pobreza e a Exclusão Social representam graves violações dos Direitos Fundamentais que devem ser cumpridos, assim como os Objectivos do Milénio.

Apelamos a que esta informação seja passada aos vossos contactos pessoais e profissionais para que seja possível mobilizar o maior número de pessoas de todos os quadrantes da sociedade e assim garantir o sucesso desta Marcha.

Todas as pessoas são bem-vindas a participar nesta Marcha e necessárias para dar voz a quem não habitualmente não a tem.

9 de dezembro de 2009

"A Consciência da Massa"

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Um assunto que me passa muitas vezes pelos pensamentos, embora nunca tenha conseguido exterioriza-lo. Neste texto, o autor consegue fazê-lo de forma simples e directa. Espero que gostem e que assimilem...


Uma das verdades mais fundamentais - e no entanto mais difíceis de compreender - é a de que as pessoas vivem todas em diferentes níveis de consciência.

Não se assimila esse Ensinamento nas suas mais profundas implicações apenas lendo ou pensando sobre ele; há que observar a maneira como as pessoas agem, pensam, falam, sentem, reagem, vivem. O que lhes ocupa o pensamento. Como usam o tempo. O que as preocupa. Os objectivos que têm na vida. Aquilo de que falam. E então torna-se evidente que todas vivem em diferentes níveis de consciência e, até, o nível de consciência em que vivem.
A grande maioria da Humanidade vive num nível biológico-social instintivo. Nesse nível, as pessoas são condicionadas pelos valores vigentes e pela mentalidade comum. As suas identidades são uma mera extensão das normas, crenças, costumes e tabus da sociedade em que nasceram. Vivem polarizadas na sobrevivência e, se possível, na acumulação de dinheiro, poder e estatuto. No mínimo, precisam de um emprego seguro e um parceiro para acasalar e reproduzir-se. Odeiam a solidão.
Não têm ideias ou pensamentos originais; falam do que toda a gente fala, têm as opiniões que os meios de comunicação, os líderes de opinião e o status quo querem que tenham. Lêem jornais desportivos e revistas sobre programas de televisão, falam sobre pessoas e acontecimentos triviais do dia-a-dia. Gostariam que o mundo mudasse mas não começam por si próprios. Não questionam o que lhes é dito; se os seus líderes lhes dizem que os afegãos são maus e os astrólogos mentirosos, então os afegãos são maus e os astrólogos mentirosos. Assim, bovinamente, sem sequer investigarem o assunto. Consomem bens e serviços de que não precisam de facto e cujo único valor é o próprio acto de serem adquiridos e o estatuto que lhes está associado - na ilusão de que serão mais no dia em que tiverem mais.

Vivem vidas inteiras repetindo os mesmos padrões mentais e emocionais, submersos na sua própria subjectividade e incapazes de se verem objectivamente. Não fazem ideia do que são "energias", "arquétipos" ou "padrões". Não fazem ideia de que a vida é um processo de crescimento e desenvolvimento pessoal e não uma luta pela sobrevivência.
São os autómatos de que o sistema precisa para assegurar a sua reprodução e a manutenção das suas próprias estruturas. Constituem a "consciência da massa".

Libertarmo-nos da consciência da massa tem um preço muito alto. Porque os valores da sociedade são redutores, mas dão segurança - a mesma segurança que um rebanho dá a uma ovelha.

Evoluir para outro nível de consciência implica questionar e pensar por si mesmo; implica ser incompreendido e ridicularizado por quem não vê mais longe. Implica conviver com as conversas ocas, mecânicas, de quem nos rodeia. Implica ser livre. E a sociedade não gosta de indivíduos livres, porque são uma falha no sistema e um mau exemplo para os autómatos - e esses é que fazem falta, para que tudo isto funcione...

De Nuno Michaels

7 de dezembro de 2009

Sem título.

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Tenho sempre o hábito de ir à janela antes de sair de casa... Um dia destes, numa dessas espreitadelas, vi em frente à minha janela um homem debruçado sobre o caixote do lixo... Minutos depois quando saí de casa vi o mesmo homem sentado na calçada a comer. Duas senhoras à porta de uma loja observavam com repúdio questionando-se incrédulas se ele estava mesmo a comer aquilo e a lamber os dedos... Pelo meu pensamento passou apenas a ideia de que aquela refeição que alguém deitou fora podia muito bem ter saído da minha casa (ou da casa de uma das senhoras enojadas) como simples e dispensáveis "restos"... Segui o meu caminho sempre com a imagem daquele homem a lamber os dedos e com ar satisfeito.

Já muito longe pensei:

Vivemos na Era da Informação em que a mesma nos chega no exacto momento em que as coisas acontecem... Numa época em que assistimos à desgraça alheia em HD, no conforto do sofá, com pormenores e detalhes infindáveis... Como é que uma sociedade tão evoluída tecnologicamente continue a desvalorizar a facilidade em obter água e comida e a desprezar tudo isso deitando fora comida só porque estamos fartos ou porque tivemos mais olhos que barriga...?! E como é que conseguimos ficar enojados quando vemos alguém a fazer de tudo para sobreviver quando devíamos sentir nojo de nós mesmos por não fazermos nada para que essas situações não ocorram?! E a facilidade com que seguimos com as nossas vidas como se nada estivesse a acontecer?

Lembrei-me da famosa foto de Kevin Carter que venceu o Prémio Pulitzer em 1994...





Muita gente considera esta foto como sendo a melhor de todos os tempos! Eu acho que é um dos maiores exemplos do carácter da nossa humanidade... O autor podia muito bem ter saído a correr para ajudar aquela criança e afastar o abutre que estava ali a aguardar a sua morte, mas a humanidade de Kevin Carter fez-lhe esperar vinte minutos, pensar no que iria fazer, tendo decidido procurar o melhor ângulo e registar o momento que lhe iria valer o Pulitzer e fama... só depois é que foi socorrer a criança e afastar o abutre (relatos do próprio Kevin Carter).

Mas quem sou eu para o julgar? Naquela manhã podia muito bem ter parado e oferecido uma refeição decente àquele homem, mas segui o meu caminho... O meu castigo é, quatro dias depois, ainda ter na mente aquela imagem e sentir vergonha de fazer parte deste mundo e, acima de tudo, vergonha por ter dado o meu contributo para que ele permaneça assim.

3 de dezembro de 2009

Primeiro levaram os negros...

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...Mas não me importei com isso
Eu não era negro

Em seguida levaram alguns operários
Mas não me importei com isso
Eu também não era operário

Depois prenderam os miseráveis
Mas não me importei com isso
Porque eu não sou miserável

Depois agarraram uns desempregados
Mas como tenho meu emprego
Também não me importei

Agora estão me levando
Mas já é tarde.
Como eu não me importei com ninguém
Ninguém se importa comigo.

Bertold Brecht