28 de fevereiro de 2010

Le Cahier Noir

0 comentários
Há meia dúzia de dias reestabeleci contacto visual com o meu Cahier Noir Vol. 1,2,3,4,5 e 6 que estava no fundo de uma caixa que por sua vez estava debaixo de outras caixas que estavam no fundo do armário que nunca abro, no fundo do corredor onde nunca passo. Achei interessante o facto de ter lá cenas que escrevi há algum tempo e a carapuça ainda servir a muita gente. A modos que vou começar a postar coisas da tipologia "de mim para mim sem capa nem contracapa". Se me marcaste de alguma forma vais-te sentir falada/o. Aos que já estão a tremer... breath easy, porque vou cortar e costurar de modo a que ninguém saiba quem é quem.

Prends soin de toi  ;)

25 de fevereiro de 2010

Barry White, Joshua's Shoarma & Um Nokia 6610 muito velhinho.

5 comentários
Conheceste esta mulher e a primeira vez que olhas-te para ela não sentiste nenhuma necessidade de ver se é bonita ou feia, nem o perfume que usa, nem que marcas veste. Nela tudo isso é acessório. Para ti basta sentires que ela existe e que está à tua frente. Sabes que não consegues gostar dela com os olhos porque estás hipnotizado pela sua presença radiante e pela forma como ilumina todos em seu redor, onde nada parece existir e onde tudo vive a cada olhar seu. Ela fala contigo e em cada palavra sentes que ela esteve sempre ao teu lado e que a conheces desde sempre, tentas lembrar-te de onde, mas o que te vem à memória são as mulheres que tens na tua lista de amigos do Myspace e afins, o quão bonitas são e o quão vazias passaram a ser desde a noite em que a conheceste. Enquanto caminham e conversam recebes um telefonema: Era a tua melhor amiga a perguntar se ias demorar muito a chegar à festa de aniversário dela que estava a decorrer naquele instante e que tu tinhas prometido ir. Pedes desculpa e dizes que passas por lá mais tarde caso consigas despachar-te cedo. Mas nem tu nem ela sabiam que a tua noite na margem norte ia ser longa. Terminas a chamada, olhas para a tua companhia e dizes que a culpa é de quem se atrasou por ter ficado a dormir até tarde. Ela riu-se e naquele momento tu te apaixonaste pelo sorriso dela. Começam a falar de música e ela diz-te que não conhece muito Nina Simone. "Shame on you", dizes tu. Em contraponto, ela diz que gosta bastante de Marvin Gaye, B.B.King e Barry White. De imediato lembras-te daquela ida à Fnac do Chiado... no lugar daquela mulher de vinte e tal anos que se dirigiu a ti perguntando pelo cd de 50 cent, imaginaste uma Mulher de vinte e tal anos a perguntar se tu lhe podias indicar o melhor cd de Barry White. Não é qualquer mulher que gosta de Barry White e tu sabes disso. Perguntas-lhe que livros ela gosta de ler e ela responde literatura internacional. Tu não gostas de ler, mas gostas do facto de ela gostar de ler e de não se limitar a lugares que lhe podem padronizar a mente. Fechas os olhos por dois segundos e lês-lhe a aura: Inteligente e Divertida, sem dúvida! Laranja, dourado, amarelo e branco são as cores que lhe definem, ela é filha do astro-pai. Sentes o quão madrasta a vida lhe tem sido. Vês-lhe introspectiva, comprimida, insegura e hesitante, a tua vontade é segurar-lhe a mão e dizer-lhe para ter coragem porque tudo vai correr bem. Identificas-te com a luta dela porque também tiveste de lutar muito para estares onde estás. Incomodada com o teu silêncio, ela olha para ti, sorri e tu devolves o sorriso. De seguida dizes que estás com fome e ela diz que conhece um restaurante no Chiado que serve comida com um nome estranho que nunca ouviste falar, Shoarma... Joshua's é israelita diz ela. «E eu conheço um tasco no Rossio que serve comida ao quilo» - Não lhe conseguiste convencer e acabas por deixa-la guiar-te. Foi um momento especial no restaurante, ela fez o pedido por ti, ouviu-te e olhou-te nos olhos enquanto conversavam. Riram e brincaram muito um com o outro. Terminaram o jantar e foram caminhando até ao Bairro Alto, ela mostrou-te os sítios onde costuma parar com os amigos e a famosa Tasca do Chico onde ela costuma ir ouvir Fado Vadio. No final da noite, quando chegou o momento de cada um seguir o seu caminho perguntaste-lhe se ela tinha gostado do serão e ela disse que sim, depois perguntou-te se ainda estavas com fome e tu disseste que sim. Ela riu-se e disseste que para a próxima iriam ao "teu" tasco no Rossio. Fizeste a viagem de regresso a casa a pensar nela e a pensar se ela também estaria a pensar em ti. Quando chegaste a casa lembraste-te que sempre te disseram para não gostares de quem não ouve a mesma música que tu, por isso enviaste para o hotmail dela o «i put a spell on you» e mais três da tua cantora preferida para ela ouvir. Pouco depois recebes um sms  tripartido, porque o teu velhinho Nokia 6610 já não recebe sms's muito extensos. Ela diz que adorou as músicas da Nina Simone que lhe enviaste, que já as meteu no telemóvel e que tu devias pensar em comprar um telemóvel novo. Pedes-lhe para ir ao MSN mas ela diz que está cansada, mas que te telefonava em 5 minutos. São 5 da manha e não estás a sonhar. Já devias estar a dormir há 5 horas, mas para ti o tempo parou às 0.47, momento em que o teu telemóvel tocou e viste o nome dela no visor. Neste momento, após muita conversa sobre tudo e sobre nada ela está a dizer-te que tens de ir dormir porque «daqui a duas horas vais para o trabalho» e que «devias deixar de beber café». Ela despede-se de ti do modo como sempre o fez  «nana muito, descansa muito, sonha muito...» Desligam os dois ao mesmo tempo, atiras o velhinho 6610 para o fundo da cama e antes de adormeceres dizes para ti mesmo: «Esta é a imagem dela que vou guardar para sempre, mesmo que a ida ao meu tasco no Rossio nunca se concretize, mesmo que ela um dia deixe de me enviar sms's tripartidos e eu deixe ver o nome dela a chamar pelo meu no visor do meu 6610... Se um dia destes os meus olhos substituírem o meu coração e decidirem enxerga-la, esta imagem sobrepor-se-à a qualquer outra que ela me possa transmitir».

21 de fevereiro de 2010

As pessoas vêm e vão num ir e vir quase pornográfico.

3 comentários
Durante a nossa vida conhecemos pessoas que vêm e que ficam, outras que vêm e passam. Existem aquelas que vêm, ficam e depois de algum tempo vão-se. Mas existem aquelas que vêm e vão com uma enorme vontade de ficar...
Charles Chaplin

Nunca fui um socialite, na verdade sou um anti-social daqueles que só sai de casa arrastado, a minha  vida social resume-se na maior parte do tempo ao casa-trabalho e vice-versa… Sou muito selectivo com as pessoas com quem me relaciono, ainda assim é complicado calcular o número de pessoas que já passaram pela minha vida... Até ao 12º ano mudei 3 vezes de escola, todos os anos tinha colegas novos que vinham preencher o lugar daqueles que ficavam para trás. Na faculdade tive duas turmas, pelo meio mudei de casa e de bairro, trabalhei, fiz voluntariado em diversos locais. Na internet também fiz algumas amizades (no tempo em que isso era possível). Todas as relações que estabeleci criaram novas possibilidades de conhecer mais pessoas... Em todos os locais e fases da minha vida deixei amigos, colegas e conhecidos...

Algumas acompanharam o tempo e foram saindo silenciosamente.
Algumas conseguiram ficar, apesar de termos seguido caminhos diferentes.
Algumas não queriam estar sós, mas também não queriam a minha companhia. Acabaram por partir.
Algumas queriam somente satisfazer as suas necessidades.
Algumas apenas queriam boleia.
Algumas queriam apenas ajuda para passar no exame.
Algumas queriam apenas amizade.
Algumas queriam crescer ao meu lado mas não conseguiram acompanhar-me… nem eu a elas.
Algumas não saíram, continuam no mesmo sítio esperando por mim, ignorando o momento em que eu saí.
Algumas nunca chegaram a ir embora porque não as deixei ir, ainda que elas já tenham ido há muito tempo.
Algumas fazem falta e deixaram saudades, outras nem por isso.
Algumas voltaram, mas eu nem sempre voltei com intenção de ficar.
Algumas nunca quiseram nada, iam passando sem vontade de ficar, não deixaram nem levaram nada.

Apesar de considerar que para a maioria das pessoas tudo se desenrola em redor da satisfação de necessidades, acho fascinante o facto de, por mais pequeno que tenha sido o tempo de convivência, todos terem contribuído para o meu crescimento individual e para estar onde estou hoje. Todos eles fizeram-me ver que eu estava errado quando realmente estava. As atitudes de alguns fizeram-me traçar o tipo de pessoa que eu não queria ser. As opiniões divergentes das minhas fizeram-me desconfiar de mim mesmo e desse modo partir para outras descobertas… Alguns fizeram-me rir e riram-se comigo quando precisava, outros disseram-me um simples “olá” quando estava só.

Todos nós temos algo a dar uns aos outros, independentemente do sinal de positivo ou negativo que colocamos... Por vezes é complicado vermos de que forma é que uma pessoa que nos magoou pode contribuir para o nosso crescimento, mas se pensarmos bem chegamos à conclusão que essa experiência passou a fazer parte da bagagem empírica que nos ajuda diariamente na tomada de decisões.

Fascina-me essa facilidade com que conhecemos pessoas e de ser algo que escapa ao nosso controlo. Por outro lado, assusta-me o facto de nem sempre nos lembrarmos que depois de duas pessoas se cruzarem depende somente delas a manutenção de uma trajectória mais ou menos paralela e que se uma das partes não se esforça a relação dilui-se com a mesma facilidade com que começou.

NAR6.


10 de fevereiro de 2010

Sri Aurobindo

0 comentários
" Vida é vida - seja de um gato, ou de um cão ou de um homem. Não há diferença entre um gato e um homem. A ideia de diferença é a concepção humana para a vantagem do homem. "

3 de fevereiro de 2010

Mais uma dos Me(r)dia

0 comentários
Numa altura em que vem de novo à baila mais um episódio da saga "Diz que disse", rodado em torno do Primeiro e suas intrujices provadas em escutas desta vez feitas pessoalmente por um primo do vizinho do colega da afilhada do outro em cantos escuros de tascos e tabernas... Numa altura em que os media falam novamente em atentados à liberdade de expressão... Eu venho falar da falta de ÉTICA e RESPONSABILIDADE de quem escreve, publica e difunde notícias como a que se segue.


O que é que o título tem a ver com o texto da notícia?


O título
 De acordo com dados da S.S, no final do 1º semeste de 2009 existiam cerca de 385 mil beneficiários do RSI inseridos em 149 mil famílias... O título da notícia fala em 40% de irregularidades... Lendo apenas o título chega-se, com um simples raciocínio matemático, à conclusão de que foram detectadas intrujices em 59 mil famílias beneficiadas pela RSI... Muito grave não é?!

O texto da notícia
Contudo, ao lermos o primeiro parágrafo da notícia, o/a autor/a (que não se identifica - se eu tivesse a vocação e a capacidade para escrever baboseiras também não metia o meu nome em lado nenhum!) fala de 14% de irregularidades em 40 mil... se MATEMATICARMOS mentalmente chegamos à conclusão que foram detectadas irregularidades em cerca de 5600 prestações.

E eu pergunto mais um vez, o que é que a notícia tem a ver com o título e/ou vice-versa? 

Se tivermos em conta que o cidadão comum lê apenas o título (isto é um facto que constato todos os dias nos transportes públicos - as páginas de "Desporto" e "Fama & TV" são as únicas que são lidas com o devido afinco) e que muitas vezes é incapaz de interpretar correctamente o que está a ler,  podemos ter a certeza absoluta que hoje, ciganos, pretos, brancos que vivem em bairros sociais viram reforçados todos os rótulos aos quais estão associados. Todos aqueles que hoje, a caminho do trabalho, deram apenas uma vista de olhos pelo Destak engordaram os seus preconceitos relativamente às classes mais pobres da sociedade portuguesa. 

É claro que há pessoas ludibriaram o sistema, a chico-espertice nasce com o português. Mas também há as que não conseguem sobreviver sem a ajuda do Estado e a experiência diz-me que são bem mais numerosos do que os chicos-espertos. 

Nada justifica a generalização de uma ideia que corresponde a apenas um extracto da realidade, nem a propagação de informação que não corresponde à realidade. A não ser que alguém tenha interesse em fomentar o sentimento de ódio em toda a sociedade e que matemo-nos uns aos outros. É este tipo de manipulação que me faz ligar poucas vezes a TV e por este andar a imprensa escrita também será arrumada p/lado. Uma coisa é noticiar, outra é fazer opinião... os media actualmente são fazedores de opinião, longe vão os tempos em que se limitavam a noticiar. 

«A Liberdade de Expressão deve ser exercida com Responsabilidade.»