30 de junho de 2013

Living @ Pemba

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Sítios, pessoas, momentos, detalhes... 
Nomes, sons, palavras... 
Cores, cheiros, sabores... 

Escrever para não esquecer que o melhor de tudo não coube na bagagem!

O planeamento da melhor viagem de sempre reflectiu as idiossincrasias de dois seres livres que arrancaram com poucas coisas definidas: mochila às costas, datas de partida e regresso a Lisboa e os 4000 km que iríamos percorrer em 22 dias. Tudo o resto foi acontecendo ao sabor do vento, do sol, do Índico e da liberdade.

Durante os preparativos, tomámos algumas vacinas e aconselharam-nos a ter cuidado com tudo e mais alguma coisa. Carissim@s, ir a África armados em coninhas é o primeiro passo para  regressar com a cabeça no dinheiro que se gastou. As únicas coisas que senti serem efectivamente indispensáveis foram: repeletente para a mosquitagem (quantidades industriais) e imodium (pelo sim, pelo não).

Aterrámos em Maputo num sábado à noite e dedicámos os dois dias seguintes a conhecer a cidade. Guiados pelo Orquídeo (nosso motorista/guia em Maputo), cumprimos a primeira de três missões e comprámos um bilhete de avião para o norte fomos assaltados pelas Linhas Aéreas Moçambicanas! Ao terceiro dia voámos 2000 km para norte (Pemba, província de Cabo Delgado) e demos inicio à aventura propriamente dita: fazer o percurso inverso via terrestre, junto à costa, à velocidade do chapa lotado, ao ritmo da ausência de agendas, compromissos, responsabilidades...

Os 22 dias de Moçambique podiam ter sido os 22 dias na Baía de Pemba. Ficar alojado na Praia do Wimbe, a  menos de 50 metros do mar (Complexo Turístico Caracol), foi como entrar num postal paradisíaco, trancar a porta a sete chaves e atirar a chave para o fundo do Oceano Indico.

Os primeiros raios rasgam os céus por volta das 4:30 da manhã e às seis da manhã já não tínhamos motivos para estar na cama. O ir e vir das pessoas força um delicioso despertar: ir à praia, dar um mergulho, fazer uma caminhada, ler um livro no terraço, lavar a roupa suja ou voltar para a cama porque a essas horas ainda não há estabelecimentos abertos que sirvam o matabicho (pequeno-almoço).

O tempo parece passar devagar. Dez da manhã pareciam duas da tarde. A dimora ki si fazia sintir era o universo canalizando: estou a pidir, que se libertem dessa maldita concepção de tempo!

Diário mental: a Baía de Pemba é enorme! O acesso à praia é livre e desafogado. Não se sente a pressão do turismo, aliás, não há turistas, somente viajantes discretos como nós. No areal, a sombra de enormes palmeiras convidam a um cuchilo. A água do mar é quente e tranquila. A areia é branca e fina. Nos finais de dia, o balançar das ondas transporta risos, gargalhadas e brincadeiras de crianças que aproveitam as férias de Verão. Os restaurantes Pemba Dolphin e Mar e Sol estão repletos de gente! O papel de mesa do Dolphin tem a seguinte mensagem: Seja paciente por favor. Ajude os nossos colaboradores a melhorar. No Mar e Sol comi a melhor espetada de marisco de sempre! Percorrendo o areal, um grupo de jovens negoceia colares e peças tradicionais elaboradas manualmente. O Promodesto, o Alexandre, e outros, fizeram parte dos nossos dias em Pemba, tinham sempre o intuito de nos vender algo, mas eram educadíssimos e bons conversadores.

Pemba, Pemba, Pemba! Hei-de celebrar um réveillon contigo!

Com mais ou menos duas horas de vida em Pemba no paraíso fizemos amizade com dois moçambicanos (Manjate e Edgar) e em menos tempo já tínhamos combinado ir jantar no "Rei do Frango Assado" e, no dia seguinte, dar uma volta pela região, comprar peixe fresco para grelhar algures.

Frases soltas: Relativamente a refrescos, entre a 2M, a Laurentina e a Manica, a escolha será sempre Manica! O meu tom de pele familiariza-me, o meu sotaque denuncia-me. Turista rima com bailout aka jackpot aka ganhar-o-suficiente-para-uma-refeição-completa-no-rei-do-frango-assado. A viajante branca de olhos claros saiu do carro (contra os conselhos de um sábio local) e o preço do peixe inflacionou exponencialmente. Tudo é regateável, no entanto, estas pessoas merecem uma refeição no Rei do Frango Assado. 

Conceitos: Maningue nice = Buéda fixe. Pemba é maningue nice! (x1000)

O primeiro anoitecer revelou-nos uma surpresa, as constelações surgem numa posição inversa à que estamos habituados no hemisfério norte. Não tenho vergonha em afirmar que fiquei um pouco desnorteado (literalmente), pois só à segunda tentativa é que consegui apontar correctamente em direcção ao norte.

São apenas duas horas de diferença, mas o jet lag cultural é abismal. A hospitalidade, o sentimento de segurança, a multiculturalidade, a heterogeneidade religiosa, o respeito mútuo e o ritmo de vida fizeram-me inverter a ordem dos três mundos. O conceito de subdesenvolvimento que teorizam nos livros e salas de aulas é relativo. Em termos de valores e atitude perante a vida estamos a anos-luz de um país que já nos pertenceu, o que me remete para os séculos em que andámos por lá sem que tenhamos conseguido identificar e extrair a maior riqueza de todas.

Após uma tentativa falhada de nos desprendermos de Pemba, lá conseguimos avançar para a próxima etapa da viagem: Ilha de Moçambique!

Fizemos parte dessa longa viagem com o Manjate e sua respectiva família. Eles são de Nampula e deram-nos boleia até Namialo, um cruzamento onde iríamos apanhar um chapa para Monapo e depois outro chapa para a Ilha. O chapa é nome que se dá ao transporte público local: carrinhas toyota (de caixa aberta ou fechada), de preferência com mais de 15 anos de antiguidade, ruidosos, com bancos duros, a cair aos bocados, mas perfeitamente funcionais!

A paisagem muda drasticamente de uma região para a outra. À medida que avançamos em direcção ao sul, o verde manifesta-se com maior regularidade. A terra é vermelha! Tudo existe e acontece à beira da estrada. Habitações, igrejas, escolas, cemitérios, terrenos de cultivo, comércio, paragens de chapas... Um carro parado é alvo de mulheres, jovens e crianças que tentam vender mangas, caju (lá chama-se castanha), água, refrescos, bananas, bolos, sandes, pilhas, cartões telefónicos, etc.

Dica: o melhor caju e as melhores mangas compram-se à beira da estrada!

Outra dica: A mulher moçambicana não anda, ginga... E não é o peso da mercadoria que leva em cima da cabeça, nem a criança que leva às costas que a impedem de balancear a curvatura da sua existência... Bom, fiquemo-nos por aqui...!

Entrar no chapa não significa que ele vá arrancar de imediato, pois a viagem só tem inicio quando estiver lotadissimo! E em Moçambique o chapa nunca está suficientemente cheio, há sempre espaço para uma família, um guarda com uma kalashnikov, uma galinha com cara de jantar, um ar condicionado ou dois backpakers como nós. As paragens estão definidas e são feitas a pedido do passageiro. Há um cobrador (sempre com cara de poucos amigos) que controla as entradas e saídas, gere o espaço, cobra a viagem e faz cara de mau, sempre. Os preços estão pré-definidos e paga-se no desembarque. Apesar do rótulo de jackpot inerente à nossa condição, em toda a viagem, só por uma vez pagámos mais do que era suposto.

Namialo: sentámo-nos nos bancos da frente do chapa. À minha direita uma criança que não tinha espaço atrás sentou-se entre a minha perna e a do motorista, ou seja, exactamente em cima da caixa de mudanças! Éramos quatro pessoas nos bancos da frente mais 20 lá atrás. Após meia hora de viagem perguntámos ao motorista se ainda faltava muito até Monapo. Ele olhou para o relógio, apontou para o horizonte e tranquiliza-nos com um "falta pouco" (deviam faltar umas duas horas de viagem) - este é um dos traços culturais, a distância e o tempo resumem-se ao "lá" e ao chegas quando chegares.

Monapo: Pousei a minha mochila e sentei-me em cima dela. Pouco depois uma jovem senta-se ao meu lado, na outra extremidade. O contacto é inevitável, mas não causa qualquer constrangimento. Fiz metade da viagem com a mão de uma desconhecida apoiada na minha perna. Olhei para a Joana e vejo-a a conversar com a mulher que ia ao seu lado. À minha frente uma mulher sorri durante toda a viagem. Ninguém conhece ninguém, as condições do transporte são más p'ra c#$%"L&o, as estradas são uma m/"#£@, mas as pessoas conversam e largam sorrisos com convicção!

Percorrer perto de cem quilometros à noite, num chapa de caixa aberta, em estradas pouco ou nada iluminadas, ao lado de dezenas de pessoas, à mercê do frio e da mosquitagem,  a velocidades estonteantes foi uma experiência indescritível! Foi claramente um dos momentos altos da nossa viagem. Foi Moçambique sussurrando nos nossos ouvidos: Ei, vocês estão em Moçambique!

Chegados à Ilha (quase 22 horas locais), fomos acolhidos por dois jovens estudantes (o Nuro e o João) que se apresentaram como guias e que nos acompanharam até ao nosso alojamento (Casa Branca).

À primeira vista, Muhipiti (Ilha de Moçambique no dialeto local) não cativa, mas conhecer o museu, o forte, as estátuas de Vasco da Gama e Camões, a casa onde este último viveu alguns anos, as praças, o pelourinho, o modo de vida das pessoas que ali habitam e ler as placas que identificam os antigos serviços administrativos ultramarinos fizeram-me interiorizar um certo sentimento de pertença à cidade que foi a primeira capital da ex colónia portuguesa. A arquitectura e traça urbana unem cânones ocidentais e orientais.

Domingo é dia de culto e um passeio pelas ruas é uma experiência sem igual. As mesquitas, igrejas e salas de culto enchem-se de pessoas e é possível ouvi-las a exercer as suas crenças. A heterogeneidade religiosa e cultural que encontrámos foi uma agradável surpresa! 

Na Ilha estreámo-nos nas artes do alfaiate africano. Uma capulana transforma-se numa peça de roupa em poucas horas. Encarregámos o Nuro e o João (que ainda hoje ligam para nós para contar as novidades) de negociar com os comerciantes de capulanas e com o melhor alfaiate da ilha, o Véte.

Bom, tive de arranjar espaço na mochila para mais tshirt's e calções ehehe

Tal como em Pemba, as crianças passavam os dias na rua, brincando ou vendendo doces e gelados. Era o caso do Nuhi, um miúdo de 10 anos que vendia bolinhos de ovo feitos pela mãe. Em momento algum pediram-nos dinheiro, todos fazem o mínimo que seja para ganhar o mínimo que seja. Qualquer um depende de si próprio para sobreviver.

Lição que não consta nos manuais escolares: A economia de subsistência não é um modelo terceiro-mundista. É um modelo inteligente e inclusivo.

Ah! A Sara é sem dúvidas a melhor cozinheira da Ilha! Se um dia estiverem por aqueles lados perguntem pelo seu  restaurante e peçam matapa, arroz de côco, peixe grelhado ou lula grelhada. O peixe é negociado à nossa frente (entre a Sara e os pescadores). Caso para dizer, diretamente do mar para o nosso prato.

Não podia terminar sem vos confidenciar que o melhor guia de museu (de todo o universo) vive na Ilha! "Este combina com aquele... Aquele faz colecção com este..."

Rodeado por oceano e com apenas uma ponte a ligar-nos ao continente,  Muhipiti manifesta-se como um porto de abrigo para qualquer viajante.

Após duas noites na Ilha, seguimos em direcção a Nampula com intuito de visitar o Manjate (e família) e de apanhar um autocarro em direcção a Vilankulos.


Anexos:

Living @ Pemba Slideshow: Nar6’s trip to 2 cities including  Maputo was created with TripAdvisor TripWow!


Próximo post: Sunrise @ Vilankulos.

8 de junho de 2013

Pel'arte

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Num tempo onde o ser foi suplantado por um parecer exposicionista com linhas de neofilismo; Onde a verdade baseia-se em citar, reproduzir e desinformar; Onde copiar, colar e descomunicar ofuscam o acto criativo...



O melhor conselho que me deram foi: Sê diferente.
O segundo melhor conselho que me deram foi: Diversifica-te.
O terceiro melhor conselho que me deram foi: Faz diferente.
O quarto melhor conselho que me deram foi: Põe a criatividade ao serviço do resto!