não há finados, experiências fora do corpo, nem relatos tipo As Ultimas Palavras de um Condenado. Seguem-se momentos de ligeira desvivência flutuante onde, antes da racionalidade ser reposta, traça-se o destino a dar à informação que subiu ou desceu (conforme as preferências posicionais que cada um assume durante os momentos de cochilamento).
Talvez dê inicio a um processo de defumação e/ou trabalhos de limpeza espiritual com alho, carne de coelho, gambas de moçambique, um pires de azeitona galega, álcool e poderosos mantras que fazem o demónio bailar com mais pinta que um eucaliptal em pleno Inverno; Talvez ataque os restos da noite anterior que defuntam no frigorífico; Talvez puxe as percianas para cima e corra para a casa de banho; Talvez escreva uma quadra e medite sobre este raiozinho lácteo, como os insectos nocturnos em torno da luz, as estrelas em torno das estrelas, os meus pensamentos em torno de ti, eu em torno do nada, o nada em torno de mim...
Os oito minutos e dezoito segundos (por 150 milhões de quilómetros de distância) que o separavam da Terra, demonstram que o instante seguinte constrói-se a partir do lugar onde o sonho se tornará realidade, juntamente com os pesadelos de ontem e os delírios de hoje.
Este é o mesmo raio que ontem me fez pensar que o silêncio é ensurdecedor para aqueles de nós que ainda não ousaram pensar que não há uma sucessão de dias, mas um único dia que se repete continuamente. Um único dia que vai sendo recriado e reinventado, diferenciando-se da versão anterior, ao ponto de pensarmos que são sete por semana.
Na próxima versão de hoje, a nova versão deste raiozinho, em contacto com a nova versão da minha pele, causará um novo nível de conforto - com ou sem o "des"- (ou porque as persianas estão mais abertas; ou porque há mais nuvens no céu; ou porque há menos ozono; ou porque não atingi o estado de sono MRO ou por qualquer outro motivo que a nova versão do nar6 vos queira impingir). Por outro lado, a nova versão desta preguicite crónica estará mais resiliente, reforçando a institucionalização do Dolce Fare Niente nas versões subsequentes desta existência.
A sardinha quer que a lata seja aberta em direcção do mar e o único conselho que o sujeito eu-d'outras-perpectivas me transmitiu foi: Diversifica-te a cada momento para cada instante (o palavreado circundante é truque circense para distrair tolos e alimentar o ego).