30 de dezembro de 2011

Memória Descritiva

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D'um espaço onde o branco das paredes resume e reflecte tonalidades que os pensamentos emanam.

Onde cortinados translúcidos valsam a sinfonia do vento, 

Revelando instantes em que o brilho do ocaso ofusca qualquer criação humana. 

 No sentido oposto, uma estante tão vazia como o destino

Remete-me para as eternidades que faltam conquistar.

Com o cair da noite, o ir e vir citadino rompe os cortinados e projecta-se diante dos meus olhos. 

São sombras reféns do espaço e do tempo

Que sentem na pele que o nosso tamanho há muito que transborda a linha temporal que nos contem.

O cair da noite do lado de lá da janela não equivale ao cair da noite do lado de cá

Há sempre luz onde existe vida

Em cima de um livro que nunca li, uma vela azul ameaça apagar-se perante o sopro do inevitável. 

A realidade vivida revela-se como um sonho onde tudo é verdadeiro e falso. 

Um espelho cego segreda-me: Sim, és tu. Sou eu em ti, tu em mim

Como se, momentos antes d' a porta se fechar, uma versão minha tivesse passado para o outro lado 
e tivéssemos seguido juntos. 

Ao centro, um gira-discos avariado difunde momentos que, embora fragmentados pelo tempo e pelo espaço, permanecem em repetição constante

As lacunas da espacialidade devolvem-me o eco do silêncio

E permitem-me ouvir de forma incessante os meus desejos mais profundos,

Desses que a gente jura que já se foram quando nós é que já não estamos.

Há desejos que continuam intactos, aguardando pelo dia em que os encararemos como nossos.

13 de dezembro de 2011

Falamos, falamos, e acabamos por ficar com medo do silêncio

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«Eu queria ver o Mundo fora da perspectiva egocêntrica europeia. Podia ter escolhido a Ásia ou a América do Sul, mas acabei por escolher África apenas porque o bilhete do avião era mais barato.Vim e fiquei. E por cerca de 25 anos vivi com um pé dentro e outro fora de Moçambique. O tempo passou, e hoje já não sou mais um jovem, de facto, aproximo-me da velhice. Mas a razão porque vivi toda a minha vida com um pé nas areias de África e o outro na neve europeia, na melancólica região de Norrland na Suécia, onde cresci, tem a ver com a vontade de ver claro e de compreender.

A maneira mais simples de explicar o que aprendi da minha vivência em África é através da parábola acerca do porquê dos seres humanos terem dois ouvidos mas só uma língua. Porquê? Provavelmente porque devemos ouvir duas vezes mais do que falar.

Em África, ouvir é um princípio de conduta. Princípio esse que foi perdido no constante tagarelar no mundo ocidental, onde ninguém parece ter tempo nem mesmo interesse para ouvir o outro. Da minha própria experiência, reparei quão rápido tinha que responder a perguntas durante uma entrevista na TV há uns anos atrás. É como se tivéssemos perdido completamente a capacidade de ouvir. Falamos, falamos, e acabamos por ficar com medo do silêncio, refúgio de quem procura serenamente uma resposta.

Tenho idade para me lembrar de quando a literatura Sul Americana emergiu na consciência popular e mudou para sempre a nossa visão da condição humana e do que significa ser-se humano. Agora acho que chegou a vez de África.


Por toda a parte, gente do continente Africano escreve e conta histórias. Em breve a literatura africana explodirá na cena mundial, tal como há uns anos a literatura sul americana explodiu quando Gabriel Garcia Marques e outros lideraram uma tumultuosa e emocionante revolta contra uma verdade arreigada. Em breve uma torrente literária Africana oferecerá uma nova prespectiva da condição humana. O autor moçambicano Mia Couto, por exemplo, criou um realismo mágico que mistura a linguagem escrita com a grande tradição oral de África.


Se formos capazes ouvir, iremos descobrir que muitas narrativas africanas estão estruturadas de forma completamente diferente do que estamos habituados. Estou certamente a simplificar, ainda que todos saibam que é verdade o que afirmo. A literatura ocidental é normalmente linear, vai do princípio para o fim sem grandes digressões no espaço e no tempo. 


Não é este o caso em África. Em lugar de uma narrativa linear, em África existe uma livre e exuberante forma de contar historias que avança e recua no tempo, juntando o passado e o presente. Alguém que tenha morrido há muito tempo pode intervir numa conversa entre duas pessoas bem vivas. Isto é só um exemplo.


Os nómadas que ainda existem no deserto o Kalaari contam Histórias uns aos outros durante as suas deambulações diárias em busca de raízes comestíveis e animais para caçar. Muitas vezes contam mais que uma história ao mesmo tempo. Por vezes três ou quatro histórias correm em paralelo. Mas antes de regressarem o local onde passarão a noite, as histórias são ligadas, ou separadas para sempre, mas a todas é dado um fim.


Há uns anos atrás, estava eu sentado num banco de rua frente ao Teatro Avenida em Maputo, onde trabalhava como conselheiro artistico. Estava um dia muito quente, tinhamos feito uma pausa nos ensaios e saído para a rua na esperança que passasse uma brisa fresca. O ar condicionado do Teatro há muito que deixara de funcionar. 


Dois velhos africanos estavam também sentados comigo naquele banco, havia lugar para os três. Em África as pessoas partilham mais do que um copo de água com um grande espírito de irmandade. Mesmo em tempos difíceis as pessoas são generosas.


Ouvi então os dois homens que falavam de um terceiro que tinha morrido há pouco tempo, e um deles dizia, “Eu visitei-o em sua casa, e ele começou a contar-me uma história interessante que lhe tinha acontecido quando ainda era jovem. Mas era uma história longa. A noite veio e decidimos que eu deveria voltar no dia seguinte para ouvir o resto da história. Quando eu voltei ele tinha morrido”


O outro estava em silêncio. E eu decidi não me levantar do banco enquanto o homem não respondesse ao que tinha ouvido. Tive a impressão que assunto era importante. 


Finalmente ele falou.


“Não é uma boa maneira de morrer - antes de teres contado o fim da tua história”


Ao ouvir aqueles dois homens, dei por mim a pensar que a designação para a nossa espécie não devia ser Homo sapiens mas Homo narrants, ser que narra histórias. O que nos diferencia dos animais é podermos escutar os sonhos uns dos outros, os medos, as alegrias, as tristezas, os desejos e fracassos, e os outros pelo seu lado poderem ouvir os nossos também.


Muita gente comete o erro de confundir informação com conhecimento. Não são a mesma coisa. Conhecimento envolve interpretação da informação. Conhecimento implica ouvir.


Então, se eu estou certo que nós somos criaturas contadoras de histórias, apesar de nos permitirmos estar calados de vez em quando, a narrativa eterna continua.


Muitas palavras serão escritas no vento e na areia da praia, ou publicadas num qualquer obscuro “site”. Mas o contador de histórias continuará, até que o último ser humano pare de as escutar. Poderemos então enviar a grande crónica da Humanidade por o Universo infinito.


Quem sabe? Talvez lá esteja alguém desejando escutar...»


Henning Mankell


Furtado daqui e daqui

8 de dezembro de 2011

Infalibilidade

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“Em geral o homem pretende ser livre e entende como liberdade a falta de todo o impedimento nas suas acções. Elas são, de facto, consequência da nossa liberdade; por isso é que um homem rico fascina. Também repugna. É como aquele corpo de que fala Benjamin Franklin: tem a liberdade de lançar-se no ar, mas não tem a liberdade de não cair. Algo falha na sua liberdade quando ela não foi concebida no sentimento da infalibilidade.” 
Agustina Bessa-Luís ("Dicionário Imperfeito")

4 de dezembro de 2011

Outras narrativas

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Nunca acreditaste que o mínimo que pensavas, dizias e fazias era o suficiente para (re)definir tudo o que se seguia diante dos teus olhos. Sempre acreditaste que as mensagens não se aplicavam a ti, perdeste-te no papel de passador. Agora, olhas para trás, vês um rasto de vida insignificante e procuras a origem de um cansaço amnésico.

Não penses que deixaste de ser. Não sintas falta das noites em branco. Não perdeste nenhum dom que te faça falta. Continuas a ser a mesma pessoa, mas noutro patamar. Um patamar que ofusca essas noites das quais continuas a ser anfitrião! Mas agora apenas daqueles que querem dançar e cantar na mesma pauta que tu, não interessa o quanto desafinem. Estão ali porque querem aprender contigo. As diferenças de densidade não se fazem sentir porque agora sabes que o objectivo é comum, que o percurso é individual e que os passos nunca são solitários.

Se não estivesses a ir bem, esse cansaço não se faria sentir. As dicotomias da realidade esbateram-se e fundiram-se no momento em que conseguiste fechar os olhos e deixaste de temer a realidade esquizofrénica. O sim não é oposto do não. O bom não existe contra o mau não. A luz e a sombra são a mesma coisa. 

Pediste-me para voltar, mas não foi por teres saudades de mim. Sentes saudades de ti porque experimentaste a unidade e gostaste de te ver. A ausência é uma oportunidade para evoluir para outras formas de estar presente, onde a saudade e o amor não são banalizados. São vibrações, tonalidades em expansão... no lugar das palavras e da visão.

3 de dezembro de 2011

Criatividade, Ideias e Activismo

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Pensar criativamente/activamente é estar um passo à frente daquilo que já existe e de capacidades que demonstrámos em ideias anteriores. É colocar a intuição, o onírico, o surreal e o 6º sentido ao nível do conhecimento e da razão. É desvalorizar regras, verdades absolutas e preconceitos. Muitas vezes não exteriorizamos uma ideia por a acharmos descabida, sem nexo e básica a.k.a temos medo que alguém nos coloque o rótulo de indivíduo alucinado e/ou consumidor de psicotrópicos. 

Há que erguer o dedo do meio a nós mesmos e aos conceitos que (não) nos suportam! 

O mundo está em constante evolução, ao ritmo de 7 mil milhões de seres pensantes e criativos duas dúzias de "indivíduos alucinados e/ou consumidores de psicotrópicos" que o compreendem e que conseguem estar sempre vários passos à frente. Os restantes limitam-se a seguir, reproduzir e replicar as respostas existentes.

Não criamos. 
Não construímos.
Sobrevivemos. 
E não existimos até termos ideias próprias.

[...]

Não raras vezes, as ideias surgem hemorragicamente e perdem-se sem que consigamos juntar as peças, ficando sempre a sensação de não termos ainda capacidade neurológica para passar à próxima fase do processo criativo. Hoje apeteceu-me escrever aqui, tinha uma ideia inicial que deu origem a outras que não se soltaram. Decidi vasculhar outros registos à procura de algum rascunho com horizontes. A maioria desses apontamentos tinham sentido e propósito quando foram rascunhados. Agora, olho para eles e não consigo dar seguimento. É caso para dizer que, neste contexto, essas ideias/respostas tinham prazo de validade porque estavam fortemente conectadas a mim e às realidades que me continham no momento em que as produzi. Quanto maior for o tempo decorrido entre o surgimento do primeiro rascunho (seja mental ou escrito) até à concretização de uma resposta, maior é a probabilidade de deixar de fazer sentido e de não ter o efeito desejável em nós mesmos.

[...]

Manifesta-te hoje ou cala-te para sempre?!

Dizem que o silêncio é o refúgio do sábio, mas na minha opinião, em contexto social, o silêncio é muitas vezes sinónimo de consenso.

Eu sempre tentei participar em acções de rua com as quais me identifico. Lembro-me de ir a manifestações onde éramos 7 gatos pingados atrás de um tipo com um bombo. Essa acções não tiveram os efeitos desejáveis, mas aconteceram no momento em que tinham que acontecer. O 15 de Março e o 15 de Outubro e todos as Greves Gerais aconteceram depois da porta arrombada e da pilhagem generalizada. Na minha opinião foram acções que pecaram por terem acontecido tardiamente. Activismo é responder no momento certo. No momento em que as coisas estão a acontecer embrionariamente... Tipo, agora!

Tal como no processo criativo, os erros e as falhas devem ser vist@s como oportunidades de se fazer algo diferente no futuro.