19 de maio de 2010

They we're looking for God but they found religion instead.

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Em países como a India, o Paquistão, o Bangladesh, o Cambodja ou o Afeganistão um litro de ácido sulfúrico deve custar menos do que qualquer bem de primeira necessidade. A honra, o orgulho e o sentimento de macho valem muito mais do que os Direitos Humanos e o respeito pelo próximo. Um ser humano vale menos do que um livro poeirento escrito no tempo da outra. Uma mulher que desonre o marido, o pai, a mãe, o avô, o tio, o irmão, o primo, o vizinho ou o desconhecido de 80 anos a quem foi prometida, corre o risco de ser atacada com ácido sulfúrico. Falar com um desconhecido ou frequentar a escola também é motivo para alguém ir a uma loja comprar uma garrafa de H2SO4. Babli, hoje com 8 anos de idade foi atacada com ácido pelo próprio pai quando era recém-nascida. A mãe de Babli disse que o marido ficou com muita raiva por ela não ter nascido homem... 

A intenção não é matar (embora muitas não resistam às lesões), mas sim desfigurar a mulher, causar sofrimento e humilhação para o resto da vida. De nada vale fazer queixa e a própria assistência médica torna-se muitas vezes um complemento da punição supostamente levada a cabo em nome do profeta.



Irum Saeed, 30 anos, posa para uma fotografia no seu escritório na Universidade urdu de Islamabad, Paquistão, quinta-feira, 24 julho, 2008. Irum foi queimada no cara, costas e ombros há doze anos, quando um rapaz a quem ela rejeitou o casamento atirou-lhe ácido no meio da rua. Irum Saeed foi submetida a 25 cirurgias plásticas para tentar recuperar das lesões.


Shameem Akhter, 18 anos, posa para uma fotografia na sua casa em Jhang, Paquistão, Julho, 2008. Há três anos atrás Shameem foi violada por três homens que lhe atiraram ácido. Shameem foi submetida a 10 cirurgias plásticas para tentar recuperar das lesões.


Najaf Sultana, 16 anos, posa para uma fotografia na sua casa em Lahore, Paquistão, em julho, 2008. Quando tinha cinco anos Najaf foi queimada com ácido pelo pai enquanto ela estava a dormir. Aparentemente porque ele não queria ter uma outra menina na família. Najaf  ficou cega após ter sido abandonada pelos pais e agora vive com familiares, tendo sido submetida a 15 cirurgias plásticas para tentar recuperar das lesões.


Shehnaz Usman, 36 anos, posa para uma fotografia em Lahore, Paquistão, Outubro, 2008. Há cinco anos atrás Shehnaz foi queimada com ácido por um parente devido a uma disputa familiar. Shehnaz foi submetida a 10 cirurgias plásticas para tentar tentar recuperar das lesões.


Shahnaz Bibi, 35 anos, posa para uma fotografia em Lahore, Paquistão, Outubro, 2008. Há dez anos atrás Shahnaz foi queimada com ácido por um familiar devido a uma disputa familiar. Ela não fez nenhuma cirurgia plástica.


Kanwal Kayum, 26 anos, ajusta o véu com que posa para uma fotografia em Lahore, Paquistão, Outubro, 2008. Kanwal foi queimada com ácido há um ano, por um rapaz a quem rejeitou o casamento. Ela não fez nenhuma cirurgia plástica.


Munira Asef, 23 anos, posa para uma fotografia em Lahore, Paquistão, Outubro, 2008. Munira foi queimada com ácido há cinco anos atrás por um homem a quem rejeitou casamento. Ela foi submetida a 7 cirurgias plásticas para tentar recuperar das lesões.


Menuna Khan, 21 anos, posa para uma fotografia em Karachi, no Paquistão, Dezembro, 2008. Menuna foi queimada por um grupo de homens que lhe atiraram ácido para resolver uma disputa familiar. Ela passou por 21 cirurgias plásticas para tentar recuperar das lesões.


Zainab Bibi, 17 anos, ajusta o véu para posar para uma fotografia em Islamabad, Paquistão, Dezembro, 2008. Zainab foi atacada com ácido por um homem a quem rejeitou casamento há cinco anos atrás. Ela foi submetida a várias cirurgias plásticas para tentar recuperar das lesões.


Naila Farhat, 19 anos, posa para uma fotografia em Islamabad, Paquistão, Dezembro, 2008. Naila foi queimada com ácido por um homem a quem rejeitou casamento há três anos. Ela foi submetida a várias cirurgias plásticas para tentar recuperar das lesões.


Saira Liaqat, 26 anos, posa para a câmera enquanto mostra uma fotografia de si mesma, antes de ser queimada, em Lahore, Paquistão, Julho, 2008. Quando tinha quinze anos, Saira casou-se com um homem que mais tarde atacou-a com ácido depois de insistentemente ter exigido que ela fosse viver com ele  noutra cidade, embora as famílias tivessem concordado que ela não o iria acompanhar até que ela terminasse os estudos. Saira foi submetida a 9 cirurgias plásticas para tentar recuperar das lesões.


And when I'm watching the news, and my daughter walks in and choose to ask, "Why were all those people on the floor, sleeping, covered in red?" I told her, "They went looking for God, but found religion instead."  [de la soul - "held down"]

16 de maio de 2010

Um dia musical...

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...ou uma espécie de Todos os Dias Pt. II, sem a Loira, sem o Playboy, sem o Metaleiro, sem a Mulher-a-dias e sem a Preta-que-não-me-tira-os-olhos. Se calhar até passaram por mim, mas hoje serão as Criaturas-entrincheiradas-no-hemisfério-direito-do-meu-cérebro, uma greve de 24 horas na CP, o Boletim Económico do Banco de Portugal, um leitor de MP3, um dia de Primavera que de manha é Outono, à tarde Verão e à noite Inverno e que me faz lembrar a forma pitoresca como Vivaldi retratou os sentimentos e momentos da natureza nos concertos que compõem Le Quattro Stagioni. Terão de levar ainda com uma série de reflexões fastidiosas que certamente irão jorrar 'til the “fat lady” sings!

MusicOn porque acordar é um evento que pode e deve ser celebrado com Pompa, Circunstância  e Alegria q.b! A refeição mais importante deste dia não começa nem termina sem uma passagem por  Shamma Lamma Dingong  - a banda sonora perfeita para introduzir esta terça-feira! Todos os dias são diferentes, logo, cada amanhecer requer um momento musical adequado. Ontem, por exemplo, fiz questão de fazer o matabicho com Estes Gajos e ainda tive tempo para reforçar a dose com os cubanos do Chan Chan e com This mourning, I woke up Feeling brand new, And I jumped up, Feeling my highs, And my lows And my soul, And my goals que começa da mesma forma como a minha cantora preferida termina Sinner Man. É proibido sair de casa sem ir à janela ver se está Bom Tempo ou se está chover dramaticamente como aqui. Os cinco minutos até à estação são feitos no mesmo compasso destes cinco minutos. A tranquilidade do devagar-devagarinho de outrora foi substituída por passadas largas e pela preocupação de não perder o comboio, embora esse receio se concretize quase sempre (não há volta a dar a esta questão, é uma rotina com lugar cativo na minha vida). Última carruagem (outra rotina): Caras trancadas num ambiente pesado onde desculpe, com licença ou obrigado não fazem parte do vocabulário local. Nem os óculos escuros em dia de chuva disfarçam o mau humor de desconhecidos que travam duelos oblíquos no canto do olho. Ganha quem for mais lesto e apanhar o outro a mirar. Eu? Strongest Man? Invincible? Who's the one who makes the kids run? Assisto a tudo sem abrir os olhos.

Trinta minutos depois: Big City Bright Lights aka Lisboa. Passa um comboio sem parar (tssc mais um que aderiu à greve de 24 horas da CP). A 2ª parte da minha viagem está em suspenso, mas são nestes 50 minutos de olhares especulativos em direcção horizonte que faço o delineamento mental desta postada. Este dia apela a um Fight the Power, mas no MP3 canta-se em francês com nuances de Hey, Buddy Bolden da minha cantora preferida = En Noir et blanc -> Même si t'es enfermé, que tu te sens seul, dis-toi que t'existe! Pensar é um acto quântico com força suficiente para alterar a ordem das coisas… Éramos tantos a pensar no mesmo que no horizonte… um expresso para o Oriente. A fugacidade desta viagem permite-me percorrer a Onze do último álbum d'este senhor. Restam-me ainda oito minutos a pé que podem ser feitos em quatro sem olhar para trás... I'm so far ahead of you, flyin' at speed of light, gotta clear view, you aint even in my rearview !!!

MusicOff porque neste momento a musica é outra. Estou entretido a analisar o último Boletim Económico do Banco de Portugal... Sabias que, de acordo com os dados do BdP, em 2006, os licenciados tinham em média um salário base mensal de 1625 euros (!!!), enquanto o salário médio da economia era de 805 euros (!!!) e que o benefício marginal de obter um grau académico acima do ensino secundário era, em média, 763 euros, ou seja, próximo do salário médio de um trabalhador com o nível de ensino secundário (862 euros)? Sabias que em 2006 16.3% das mulheres tinham educação universitária enquanto que apenas 10.5% dos homens eram licenciados? E que mesmo assim as mulheres ganhavam (e ainda ganham) menos do que os homens? E que apesar de termos um défice de mão-de-obra com formação superior, há mais desempregados do sexo feminino que do sexo masculino? You can't fool all the people all of the time / but if you fool the right ones, the rest will fall behind featuring My style is off the record but don't turn off the record -> Sabias que em 2009, cerca de 208 mil pessoas estiveram dependentes dos bens alimentares que os 17 bancos nacionais recebem e 1758 Instituições Privadas de Solidariedade Social distribuem? Sabias que em 2009, 341 mil portugueses tiveram como rendimento o equivalente ao Salário Mínimo (450€!!!)? J’ai peur pour mes frères, j’ai peur pour mes sœurs livrés à cette réalité, cessons de répandre la terreur, au milieu des mots, on sait à qui la faute, La Voix Du Peuple doit résonner si on veut rependre le contrôle! Sabias que 182,7 mil milhões de euros é o valor da dívida do Estado? Sabias que a dívida bruta - sem contabilizar os activos - é o triplo do PIB, o equivalente a mais de três anos de trabalho dos portugueses? Sabias que contribuíste para essa dívida com os empréstimos que pediste para comprar a casa, o carro, o frigorífico, o microondas, o telemóvel 1000G, o LCD para o quarto do puto e a semana de férias no Algarve? E que mais tarde ou mais cedo vamos TODOS pagar a factura? Nota: Estes últimos números nunca vêm em relatórios, no máximo passam no rodapé do Jornal da Noite ou no fundo da última página de uma publicação qualquer com tiragem diária inferior a 5 unidades.

Olhar para estes números, projecções, taxas de juro, analise de Katz e Murphy, Índice de Gini e afins fez-me voltar aos tempos de faculdade e lembrar-me que há precisamente dois anos estava a entrar nos últimos dias de licenciatura e nos primeiros dias do já-tenho-a-escola-toda-e-agora? Hoje, felizmente, as dúvidas de Twentysomething estão em vias de serem ultrapassadas... Nunca fui muito aberto para falar de mim, nem nunca estive tão perto de saber de onde vim, mas o que realmente importa é que sei para onde vou. Sei que vou estar aonde tenho que estar, a fazer que tem de ser feito para ser quem eu quero ser.

MusicOn at 20 minutes and still counting... Não estou a bufar para a atmosfera porque sou a favor de todas as greves, pois representam um direito constitucional conquistado com muito Sangue, Lágrimas e Suor !!! Até consigo concordar com uma possível greve dos pilotos da TAP, desde que não argumentem que passam fominha por verem os seus cerca de 8.600€ mensais sem aumentos! O problema não é ganharem tanto, mas sim o facto de o português comum ter de trabalhar um ano para ganhar o que eles ganham em um mês. A meu ver devíamos todos, sem excepções, ganhar para cima de 8.600€/mês! Ó Gente da Minha Terra, Roma está a arder e o problema não é quem ateou o fogo, isso é irremediável. O problema somos nós, todos nós que não fazemos nada, apenas fugimos das chamas porque achamos que a luta não é nossa. Os atrasos? Os inconvenientes? i can always Breath In The Sun (repôr as tonalidades que o longo inverno levou) with If… and WishingI can also get Too Busy Thinking About You pamodi n’kré vivi ku Odjus Fitchadu pa’n tenebu juntu ku mi... Sima ês fla na Unforgettable: though near or far...

Lar doce lar! Há uns tempos larguei um post sobre Homens de avental e quanto à temática quero apenas dizer que já tenho doze doutoramentos nesta área e tive como júri Teddy Pendergrass Gil Scott-Heron, The Isley Brothers, Marvin Gaye, Latimore, Sara Vaughan, Leon Ware, Earth Wind & Fire, Curtis Mayfield, Al Green e Barry White... Mas hoje os meus convidados para jantar serão os Louisiana Gator Boys. Infelizmente este SUPERGRUPO é fictício e actuou apenas neste filme que vou rever depois de jantar.

MusicOff porque nesta parte do dia há quem se entregue à leitura (mas vou continuar a ouvir baixinho porque...) Pessoalmente nunca me senti motivado para ler livros, pois acredito na simplicidade da vida e que tudo pode ser resumido em duas linhas... Prefiro ir directamente à fonte e ler a realidade à minha volta... Basta-me ter o espírito aberto e o pensamento livre (e em silêncio).  Nunca gostei da ideia de anexar à minha existência fragmentos do ego de outras pessoas, o ego é uma pessoa muito má e o meu já é uma ENTIDADE SEM MANEIRAS que comunica sempre com Caps Lock. Resumindo: Nunca senti necessidade de procurar o meu caminho no caminho ditado pelos outros… Quero inventar o meu próprio pecado, quero morrer do meu próprio veneno, sem dogmas, sem doutrinas. O individualismo (não confundir com egoísmo) é o único movimento que aceito seguir. Conheço pessoas que lêem toneladas de livros, que coleccionam e respiram conhecimento pelos poros, que têm formação em tudo e mais alguma coisa, mas que em termos de relações humanas são mais limitadas do que um [intervalo fechado] Preconceituosas, grosseiras, mal educadas… Mas o pior de tudo é que procriam e difundem a obliquidade dos seus narizes ad eternum. Quando me deparo com este tipo de gente questiono-me sempre: Que impacto é que a sociedade da informação teve nas suas vidas? De que vale ler todos os livros deste mundo se no final continuam inconscientes e com a mesma atitude de sempre perante o que os rodeia? Ler para quê? Se não for para evoluirmos estamos a perder tempo... Não faz sentido nenhum falar com os céus no segredo da noite e durante o dia fazer pactos conscientes com o diabo.

MusicOff porque gosto de terminar o dia em silêncio. Entre o fechar dos olhos e o adormecer os ímpetos pensantes estão no máximo! Nesses instantes, sinto-me co-criador de uma realidade projectada em 9 dimensões por onde deambulo com o objectivo de absorver experiências de forma a que ao despertar tudo se reúna numa única dimensão: um Organismo vivo comprometido com todos os átomos nele integrados, onde o espaço entre a matéria não existe e onde o passado e o futuro resumem-se ao momento agora.

MusicOn porque antes de adormecer tem de haver sempre espaço para Dear Self, I wrote a letter just to better my soul, If I don't express it then forever I'll hold, inside...

This not the end (not even close) but you can listen the “fat lady” singing here

Escrito mentalmente ao longo do dia vintitrêsdemarçodedoismilidez. 

Amanha quando acordar a musica será outra. 


Referencias discográficas, por ordem de auscultação:


PS: Esta postada é enorme mas é amiga do ambiente. Foi elaborada à base de electrões e protões recicláveis. Todavia, ai de ti que o imprimas!

2 de maio de 2010

Dia da mãe...

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Strawberry fields forever

Os homens europeus descem sobre Marrocos com a missão de recrutar mulheres. Nas cidades, vilas e aldeias é afixado o convite e as mulheres apresentam-se no local da selecção. Inscrevem-se, são chamadas e inspeccionadas como cavalos ou gado nas feiras. Peso, altura, medidas, dentes e cabelo, e qualidades genéricas como força, balanço, resistência. São escolhidas a dedo, porque são muitas concorrentes para poucas vagas. Mais ou menos cinco mil são apuradas em vinte e cinco mil. A selecção é impiedosa e enquanto as escolhidas respiram de alívio, as recusadas choram e arrepelam-se e queixam-se da vida. Uma foi recusada porque era muito alta e muito larga. São todas jovens, com menos de 40 anos e com filhos pequenos. Se tiverem mais de 50 anos são demasiado velhas e se não tiverem filhos são demasiado perigosas. As mulheres escolhidas são embarcadas e descem por sua vez sobre o Sul de Espanha, para a apanha de morangos. É uma actividade pesada, muitas horas de labuta para um salário diário de 35 euros. As mulheres têm casa e comida, e trabalham de sol a sol. É assim durante meses, seis meses máximo, ao abrigo do que a Europa farta e saciada que vimos reunida em Lisboa chama Programa de Trabalhadores Convidados. São convidadas apenas as mulheres novas com filhos pequenos, porque essas, por causa dos filhos, não fugirão nem tentarão ficar na Europa. As estufas de morangos de Huelva e Almería, em Espanha, escolheram-nas porque elas são prisioneiras e reféns da família que deixaram para trás. Na Espanha socialista, este programa de recrutamento tão imaginativo, que faz lembrar as pesagens e apreciações a olho dos atributos físicos dos escravos africanos no tempo da escravatura, olhos, cabelos, dentes, unhas, toca a trabalhar, quem dá mais, é considerado pioneiro e chamam-lhe programa de "emigração ética". Os nomes que os europeus arranjam para as suas patifarias e para sossegar as consciências são um modelo. Emigração ética, dizem eles.

Os homens são os empregadores. Dantes, os homens eram contratados para este trabalho. Eram tão poucos os que regressavam a África e tantos os que ficavam sem papéis na Europa que alguém se lembrou deste truque de recrutar mulheres para a apanha do morango. Com menos de 40 anos e filhos pequenos. As que partem ficam tristes de deixar o marido e os filhos, as que ficam tristes ficam por terem sido recusadas. A culpa de não poderem ganhar o sustento pesa-lhes sobre a cabeça. Nas famílias alargadas dos marroquinos, a sogra e a mãe e as irmãs substituem a mãe mas, para os filhos, a separação constitui uma crueldade. E para as mães também. O recrutamento fez deslizar a responsabilidade de ganhar a vida e o pão dos ombros dos homens, desempregados perenes, para os das mulheres, impondo-lhes uma humilhação e uma privação. Para os marroquinos, árabes ou berberes, a selecção e a separação são ofensivas, e engolem a raiva em silêncio. Da Europa, e de Espanha, nem bom vento nem bom casamento. A separação faz com que muitas mulheres encontrem no regresso uma rival nos amores do marido.

Que esta história se passe no século XXI e que achemos isto normal, nós europeus, é que parece pouco saudável. A Europa, ou os burocratas europeus que vimos nos Jerónimos tratados como animais de luxo, com os seus carrões de vidros fumados, os seus motoristas, as suas secretárias, os seus conselheiros e assessores, as suas legiões de servos, mais os banquetes e concertos, interlúdios e viagens, cartões de crédito e milhas de passageiros frequentes, perdeu, perderam, a vergonha e a ética. Quem trata assim as mulheres dos outros jamais trataria assim as suas. Os construtores da Europa, com as canetas de prata que assinam tratados e declarações em cenários de ouro, com a prosápia de vencedores, chamam à nova escravatura das mulheres do Magreb "emigração ética". Damos às mulheres "uma oportunidade", dizem eles. E quem se preocupa com os filhos? Gostariam os europeus de separar os filhos deles das mães durante seis meses? Recrutariam os europeus mães dinamarquesas ou suecas, alemãs ou inglesas, portuguesas ou espanholas, para irem durante seis meses apanhar morango? Não. O método de recrutamento seria considerado vil, uma infâmia social. Psicólogos e institutos, organizações e ministérios levantar-se-iam contra a prática desumana e vozes e comunicados levantariam a questão da separação das mães dos filhos numa fase crucial da infância. Blá, blá, blá. O processo de selecção seria considerado indigno de uma democracia ocidental. O pior é que as democracias ocidentais tratam muito bem de si mesmas e muito mal dos outros, apesar de querem exportar o modelo e estarem muito preocupadas com os direitos humanos. Como é possível fazermos isto às mulheres? Como é possível instituir uma separação entre trabalhadoras válidas, olhos, dentes, unhas, cabelo, e inválidas? Alguns dos filhos destas mulheres lembrar-se-ão. Alguns dos filhos destas mulheres serão recrutados pelo Islão. Esta Europa que presume de humana e humanista com o sr. Barroso à frente, às vezes mete nojo.

Clara Ferreira Alves

http://aeiou.expresso.pt/strawberry-fields-forever=f196865