30 de dezembro de 2011

Memória Descritiva

D'um espaço onde o branco das paredes resume e reflecte tonalidades que os pensamentos emanam.

Onde cortinados translúcidos valsam a sinfonia do vento, 

Revelando instantes em que o brilho do ocaso ofusca qualquer criação humana. 

 No sentido oposto, uma estante tão vazia como o destino

Remete-me para as eternidades que faltam conquistar.

Com o cair da noite, o ir e vir citadino rompe os cortinados e projecta-se diante dos meus olhos. 

São sombras reféns do espaço e do tempo

Que sentem na pele que o nosso tamanho há muito que transborda a linha temporal que nos contem.

O cair da noite do lado de lá da janela não equivale ao cair da noite do lado de cá

Há sempre luz onde existe vida

Em cima de um livro que nunca li, uma vela azul ameaça apagar-se perante o sopro do inevitável. 

A realidade vivida revela-se como um sonho onde tudo é verdadeiro e falso. 

Um espelho cego segreda-me: Sim, és tu. Sou eu em ti, tu em mim

Como se, momentos antes d' a porta se fechar, uma versão minha tivesse passado para o outro lado 
e tivéssemos seguido juntos. 

Ao centro, um gira-discos avariado difunde momentos que, embora fragmentados pelo tempo e pelo espaço, permanecem em repetição constante

As lacunas da espacialidade devolvem-me o eco do silêncio

E permitem-me ouvir de forma incessante os meus desejos mais profundos,

Desses que a gente jura que já se foram quando nós é que já não estamos.

Há desejos que continuam intactos, aguardando pelo dia em que os encararemos como nossos.

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