Dizem que quando morremos o nosso corpo físico perde 21 gramas e que esses 21 gramas correspondem ao peso da nossa alma que por sua vez será carregado pela consciência dos que ficam. Mas a realidade não é assim, tão bela e romântica, há almas cujo peso ninguém quer carregar...
Em Portugal, e acredito que em todo o lado, categorizamos a morte como se ela tivesse uma medida extra que nos torna simpatizantes e seguidores de uma tragédia em desfavor de outra. Nas poucas vezes em que ligo a TV e faço zapping do 1 ao 100 fico sempre com a ideia que a fatalidade mais espectacular é a mais noticiada... e que morrer no Kurdistão não é o mesmo que morrer em qualquer país da Europa... Uma criancinha esfomeada da Somália que morre lentamente sem estrebuchar não tem a mesma força mediática do que a morte de uma pessoa no Chile que numa fracção de segundos é esmagada por uma placa de betão armado... Um atentado à bomba em Bagdad que cause a morte a 350 pessoas não garante tanto share de audiência como a morte de uma pessoa cujo carro foi arrastado por uma enxurrada na Flandres... Qualquer morte no nosso quintal pesa muito mais do que as dezenas de civis que sucumbiram nos recentes bombardeamentos da NATO no Afeganistão (bom, neste caso não há perdas de vidas mas sim "danos colaterais", provavelmente é um equivoco da minha parte e peço desculpas pelo erro de raciocínio...). Os portugueses lembram-se muito bem do Feher, mas aposto que não se lembram tão bem do Foé... Esta capacidade de as pessoas responderem com um choro sentido a determinados apelos ao pranto colectivo e mostrarem-se indiferentes em relação a outros deixa-me...
Há dias, numa roda de amigos discutia-se a tragédia no Haiti e eu tive uma tirada do género:
(Eu): Acho um absurdo que o desastre humanitário e execuções sumárias que acontecem diariamente em muitos países nunca serem merecedoras de movimentos solidários nem cobertura tão exaustiva como a que se está a fazer no Haiti... Mesmo se equipararmos com tragédias do mesmo género: Não me lembro que os últimos grandes terramotos no Irão, Itália, Turquia, Indonésia, Caxemira ou na China tenham merecido tantos directos, tantos enviados especiais e uma ponte aérea tão intensa...
(Alguém): Sim, mas não queiras comparar o Haiti com a Turquia ou a China...
(Eu): Não morreu muita gente nesses locais também? Não havia pessoas a precisar da nossa solidariedade mesmo que apenas espiritual? Não é disso que se trata? Eu fico muito feliz por saber que há pessoas que conseguem encarar a perda de vidas com dois pesos e duas medidas...
(Silêncio...)
(Alguém): É muito desagradável conversar contigo nar6, és demasiado sério.
4 comentários:
Concordo ctg quando dizes que parece que as vidas não têm o mesmo valor conforme o sítio do mundo onde se está.
Logo a morte também tem um peso diferente, 21g numas partes, 10g, 5g, 1g noutras.
Sinceramente não sei se concorde contigo se não! Na televisão só passa desgraça e ainda queres que passe mais???
Se fossemos ajudar financeiramente (sim porque hoje nada é de graça, seja o que for) sempre que houvesse uma desgraça, não faziamos mais nada!!Podem vir para cá para Portugal, cá não há terramotos, nem vulcões nem nada dessas coisas. Quando há é assim de tempos a tempos!
Olha Los Angeles? Que é conhecido pelos constantes terramotos! As pessoas continuam lá porque são burras, também são americanos a burrice está nos genes mas pronto! Em relação a isso não se pode fazer nada
Não quero que passe mais desgraça na tv... aliás, ia ficar muito feliz se "desinventassem" a televisão. O que me incomoda é tratarem a morte como se ela tivesse varios pesos e varias medidas.
ai desinventar a televisao nao credo!! depois o que é que eu fazia aos domingos à tarde????
A morte é algo natural, tens de ter calma... eu posso morrer amanha e nem me vai ligar nenhuma!
ahahahahha
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