Sete minutos que descontinuam o desenvolvimento linear de toda a existência e abrandam a velocidade do tempo até ao instante em que me vi na iminência de chegar à luz no fundo do túnel.
A minha experiência com essa luz não se traduziu num encontro com o todo poderoso eternizado nas ladainhas poéticas que não rimam com nada. Não eram os faróis de um comboio em sentido contrário com potencial para me fatiar. Não era a clareira (antes ou) a seguir à única estação do Metropolitano de Lisboa que reflecte todas as cores. E muito menos consequências do consumo ostensivo de estupefacientes e/ou derivados.
A acção desenrola-se num comboio, "símbolo de evolução, no seguimento de outros símbolos mais antigos como a serpente, e significa uma opção e um destino. Pode também ser um sinónimo de uma mudança para uma nova vida." Ao meu lado seguem pessoas com olhos parecidos com os que jazem nas secções de necrologia. Nas entrelinhas dos seus olhares reflectidos nos meus, a essência suplanta a aparência: todos têm medo; todos se escondem; todos choram atrás da máscara; todos se sentem perdidos por instantes que duram mais do que a soma das eternidades que transportam; todos sentem falta de si mesmos e todos sonham de olhos abertos como eu/tu/nós/vós/eles... O mundo é um lugar bonito, habitado por seres esbeltos e sensíveis. E eu sei que este lamechismo delirante e onírico é bla bla bla que me/te/nos/vos/lhes dói no coração.
Um acto de pura desobediência às leis da física imobiliza o comboio sem que ninguém tenha ficado com um único fiozinho de cabelo fora do sítio. A porta que me está mais próxima abre-se e revela uma ilustre e familiar figura que posa como se de um comité de boas-vindas se tratasse (mas sem a parte do comité). Familiar porque sinto que o conheço de algum lado. Ilustre porque era o reflexo da minha excelsa pessoa.
Sou eu tal como todos me conhecem. Sou eu fora de mim. Sou eu a olhar para mim mesmo. Sou eu prestes a dialogar comigo!
Enquanto desço da carruagem um conjunto de frases soltas (em forma de prova de conhecimentos) são projectadas na minha mente: "Já te vi e ouvi antes de tu teres pensado. Sei de onde vens e para onde vais. Sei que procuras a dimensão de reencontros. Sei que queres dialogar magneticamente com cada átomo, sem largar uma única palavra. Sei que pretendes iniciar um ciclo de contemplação, onde as palavras não têm intensidade suficiente para transmitir o que queres dizer. Sei que a saudade é a única coisa que te inspira respeito, principalmente quando te é permitido trazer lembranças das últimas mortes que te foram concedidas. Não és nem nunca serás mais (nem menos) do que as pedras sujas e gastas que estás prestes a pisar. Todas elas têm a mesma origem que tu e são caminho até ao dia em que fores mais leve que o teu peso. Esta não será a tua última morte. "
Um acto de pura desobediência às leis da física imobiliza o comboio sem que ninguém tenha ficado com um único fiozinho de cabelo fora do sítio. A porta que me está mais próxima abre-se e revela uma ilustre e familiar figura que posa como se de um comité de boas-vindas se tratasse (mas sem a parte do comité). Familiar porque sinto que o conheço de algum lado. Ilustre porque era o reflexo da minha excelsa pessoa.
Sou eu tal como todos me conhecem. Sou eu fora de mim. Sou eu a olhar para mim mesmo. Sou eu prestes a dialogar comigo!
Enquanto desço da carruagem um conjunto de frases soltas (em forma de prova de conhecimentos) são projectadas na minha mente: "Já te vi e ouvi antes de tu teres pensado. Sei de onde vens e para onde vais. Sei que procuras a dimensão de reencontros. Sei que queres dialogar magneticamente com cada átomo, sem largar uma única palavra. Sei que pretendes iniciar um ciclo de contemplação, onde as palavras não têm intensidade suficiente para transmitir o que queres dizer. Sei que a saudade é a única coisa que te inspira respeito, principalmente quando te é permitido trazer lembranças das últimas mortes que te foram concedidas. Não és nem nunca serás mais (nem menos) do que as pedras sujas e gastas que estás prestes a pisar. Todas elas têm a mesma origem que tu e são caminho até ao dia em que fores mais leve que o teu peso. Esta não será a tua última morte. "
O sujeito eu-d'outras-perspectivas cumpre-se e deixa-me sozinho no meio da linha em busca da saída.
A racionalidade com que os caminhos de ferro são construídos remetem-me para a longitudinal que separa a lucidez da loucura e que é facilmente reconhecida pela sua perpendicularidade ao lugar onde o sonho se confunde com a realidade.
O aproximar de um comboio pelas minhas costas e a falta de respeito com que encaro a morte fazem-me ter a certeza de que estou num sonho. Nos meus sonhos a morte não tem lugar. E eu ainda não me sinto mais leve do que o meu peso.
O instante anterior ao momento do impacto coincidiu com o fim da curva e com o aproximar de uma luz intensa e segura de si mesma.
Fecho os olhos e imagino aqueles focos de luz que erguem pessoas nos filmes de ficção científica...
Mas a curiosidade em ver a luz ao fundo do túnel faz-me abrir os olhos e dar de caras com um elegante raiozinho do sol de abril que conseguiu superar as persianas do meu quarto e marcar a minha pele com um doloroso Ergue-te e anda, malandro!
A lógica diz que me leva de A para B. A imaginação diz que me leva a qualquer lugar.
A escolha é óbvia. Sempre foi.
A escolha é óbvia. Sempre foi.
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