2 de agosto de 2013

Sunrise @ Vilankulos

Vinte e dois dias passados no outro lado do mundo duram mais do que vinte e dois dias passados no lado de cá do mundo. O ritmo de vida já está devidamente assimilado, a passada já está sincronizada com a velocidade do camaleão e a minha pele já apresenta uma tonalidade bem cansada.

Durante a viagem entre a Ilha e a cidade de Nampula assistimos ao maior pôr-do-sol de sempre! Imaginem uma estrada que ruma em direção ao horizonte infindável; Acrescentem uma espécie de gigante avermelhada que, à medida que vai caindo, pigmenta todo o céu e existências em seu redor.

Não tive arcaboiço mental para tirar a máquina da mochila e registar o momento. Aliás, há coisas que ficam melhor no sitio a que pertencem.

Nampula é uma cidade interior, capital da província com o mesmo nome, virada para o comércio, serviços e mosquitagem esfomeada. O destaque vai para os momentos de confraternização com portugueses que encontrámos no Ruby Backpackers, para o jantar em casa da família do Manjate, para as capulanas baratissimas que comprámos e para o momento em que ao circular pelo passeio que circunda a residência do sr. governador, fomos abordados laconicamente por um militar munido de uma AK-47: "Não pode andar aqui".

O desprendimento desta cidade também foi complicado. Tínhamos autocarro da TCO às 3h da manhã, mas só chegou às 9h da manhã, a modos que tivemos de dormir numa sala de embarque suis generis que provocou momentos de riso nas quatro pessoas que ali se mantiveram estoicamente desde as 3h da manhã... O acolhimento que (não) nos foi proporcionado resumiu-se a uma roda velha e a uma cadeira de plástico. Hey, but who cares? We're travellers not tourists!

Durante a espera, entre o escuro-claro, fui alvo de uma tentativa de emboscada por parte de milhares de mosquitos e se não fosse o belo do repelente hoje eu não estaria aqui nem em lado nenhum. Possivelmente estaria lá, no Além moçambicano, a sorver Manicas desenfreadamente e a degustar lula grelhada com arroz de côco ou um frango à zambeziana na feira popular de Maputo.

Após mais de 24 horas de viagem, tendo atravessado toda a província da Zambézia sob chuva tropical incessante e após fugaz passagem pela Cidade da Beira, chegámos a Vilankulos.

Ficámos alojados no Baobab Backpackers por indicação de um espanhol que conhecemos no "chapa europeu"  - nome atribuído ao veículo que nos transportou da Ilha para Nampula devido à origem europeia de todos os passageiros.

Nota: de modo a não desvirtuar os conceitos desta viagem, o destino seguinte e respectivo alojamento foram assegurados no dia anterior. O único "compromisso" que fomos tendo foi o de ir chegando quando chegássemos e quando Moçambique deixasse-nos chegar. Neste tipo de viagens, ficar hospedado em hostels possibilita estabelecer contacto com outros viajantes que nos podem transmitir dicas úteis (sem falar nos preços reduzidos).

"Liberdade: condição de um ser não sujeito ao constrangimento de limites físicos ou de pensamento. A possibilidade de correr sem tropeçar em muros ou paredes, ou sem cair no vazio. O capim crescendo para o céu. O destino de todos os perfumes, em particular do cheiro a terra molhada." (José Eduardo Agualusa)

Tal como em todos os outros locais por onde passámos, excepto a apaixonante Praia do Wimbe, precisámos de algum tempo para nos familiarizarmos e decidir quantos dias iríamos ficar. Esse processo de adaptação passava sempre por conhecer os caminhos circundantes, o mercado, os supermercados, restaurantes, pontos de venda de recargas da vodacom, a praça dos chapas e, acima de tudo, ver e ouvir as pessoas.

"O individuo é exactamente só aquilo de que se lembra; eu sou quem sou porque me lembro de quem sou. Se não nos lembrássemos de nada, não seriamos alguém" (Izaquierdo)

E eu lembro-me perfeitamente do dia em que registei a sequência de imagens que tenho na mente. Acordámos por volta das 5h00 para assistir a mais uma dramática levantada do sol. Acompanhados por todos aqueles que vivem em sintonia com o astro-rei: pescadores partindo para o mar; pequenas embarcações regressando do mar; mulheres e crianças caminhando em direção ao ponto de desembarque, mulheres e crianças regressando do ponto de desembarque com caixas cheias de peixe...

Por volta das 9h00 da manhã, o mar de Vilankulos foge e dá lugar a um enorme areal, de uma beleza esmagadora! No finalzinho de tarde, o mar regressa.

Logo na primeira tarde em Vilankulos, tentei alcançar o mar para um mergulho de boas-vindas, mas após caminhar em frente durante vários minutos tive de contentar-me com a água pelos joelhos.

O acesso à praia não é tão desafogado como em Pemba e o impacto do turismo é visível,  no entanto, a paisagem é um espanto!

Nas escadas de acesso ao areal, um artesão elaborava esculturas e objetos em pau-preto. Tinha 3 filhos que viviam em Pemba e o que conseguia vender dava para sustentar toda a família. No penúltimo dia em Vilankulos resolvi fazer negócios com ele e ao perguntar pelo valor de uma peça sugeriu que fosse eu a estipular o preço. Sem pensar muito, decidi que y = dificuldade em trabalhar pau preto + qualidade do trabalho + calor que se fazia sentir naqueles dias + minutos despendidos diariamente a conversar connosco + número de filhos. Da minha proposta inicial subtraiu 150 Metikais (aproximadamente 4€), argumentando que se aceitasse estaria a enganar-me. Como não tinha dinheiro comigo sugeriu que levasse a peça e que antes de partirmos passasse por lá para acertarmos contas.

Para bem da humanidade é importante reaprendermos a confiar incondicionalmente na pessoa que está ao nosso lado. 

A distância entre o nosso alojamento e o centro da vila é percorrivel a pé. O caminho é flanqueado por algumas habitações e mangueiras (carregadinhas!). Aparentemente as pessoas não têm motivos para fechar as portas nem as janelas de casa. É possível ver alfaiates a trabalhar, mulheres a fazer a lida da casa e as crianças, donas dos seus próprios narizes, brincando na rua e sorrindo para nós quando passamos.

No mercado encontra-se ovos, pão, óleo, farinha, fruta, legumes, peixe, carne seca, pequenos electrodomésticos, musica, capulanas, roupa, recargas para o telemóvel e alfaiates (mais uns calções para dentro da mochila eheheh).

Sempre que possível, comprámos e confeccionámos as nossas refeições. A nossa rotina dietética "resumiu-se" a peixe fresco, lulas, marisco, frango assado, ovos, salsichas, arroz, batata, mangas, banana, caju, pão, bolachas, água e Manica-estupidamente-gelada!

Pessoas, o choque gastrointestinal deu-se quando regressei a Lisboa... durante duas semanas tudo o que comi causou-me indisposição.

Em Vilankulos, conhecemos um viajante brasileiro que teimava em falar inglês connosco. O Giovani tinha chegado há alguns meses e foi ficando, ficando... E quando chegou a hora de partir, a vila não permitiu tamanha perda.

Para que conste, Moçambique é uma entidade muito possessiva que não te deixa partir. Se tiveres mesmo de partir, o processo será lento. E depois de partires, Moçambique tentará resgatar-te magneticamente, tipo íman. Eu luto contra esse íman todos os dias.

Também reencontrámos um casal de finlandeses que conhecemos nos primeiros dias em Maputo. Eles seguiam em direcção ao norte e tencionavam transitar para a Zâmbia ou para a Tanzânia... Pessoinhas, eu sou da opinião de que o ano sabático devia estar consagrado na Constituição da República Portuguesa!

De Vilankulos, seguimos de chapa e barco para a "terra de boa gente", Inhambane. O bom acolhimento aquando do aportamento de Vasco da Gama, ditou que Inhambane ficasse com esse título.

Inhambane foi a cidade mais portuguesa que nós encontrámos!

Fazendo juz à indisfarçável condição de cidadão da terra de boa gente, o Armando abraçou a missão de nos acolher e encaminhar até ao Centro de Promoção Humana do Guiúa com o intuito de cumprirmos a nossa segunda missão.

As nossas missões foram pedidos especiais de amigos especiais que têm relações especiais com este país especial. Acabou por ser uma forma de conhecermos outras perspectivas de ver e de estar no mundo e de conhecermos pessoas espectaculares.

No Guiúa conhecemos a família do Armando e os  responsáveis do projeto. Após algumas horas de confraternização, apanhámos mais um chapa e fizemo-nos novamente à estrada, em direcção à Praia do Tofo. Durante largos minutos atravessámos uma paisagem de cortar a respiração. A estrada serpenteava por entre enormes coqueiros que emolduravam o céu azul e um mar imenso que deixava-se ver em curtos intervalos.

Na Praia do Tofo, ficámos alojados no Mozambique Fatimas Backpackers. A praia parece a Fonte da Telha, mas com mais areia, menos pessoas, menos ruído, menos carros, menos trânsito, menos pressão urbanística, menos lixo, menos tudo-aquilo-que-abominamos-quando-vamos-a-qualquer-praia-em-Portugal.

No Tofo, estendes a tua toalha e a pessoa mais próxima dista uns 100 metros! A pressão turística é visível, mas a praia é tão grande que se caminhares para a esquerda, corres o risco de percorrer uma larga distância sem te cruzares com uma única pessoa.

Há bastante estrangeiros, principalmente sul africanos... Há escolas de mergulho, terrenos e casas à venda... Há bares, restaurantes e alojamento para todos os gostos... Há pescadores que se fazem ao mar heroicamente em embarcações precárias... Há crianças e jovens que percorrem a praia de uma ponta à outra tentando negociar pulseiras e colares de missangas. Quem não gostar do portefólio pode pedir um exemplar personalizado. Recordo-me de um miúdo de 9 anos chamado Augusto a quem encomendei um colar e duas pulseiras por um preço irrisório. Escusado será dizer que durante a estadia no Tofo, sempre que me via sentado num dos restaurantes da praia ou a passar no areal vinha ter comigo tentar vender-me algo.

Ah! Certa noite fomos ao Dino's (tentar) ver o concerto do Ras Tony...! Eu tropecei nas escadas e fui amparado por uma loira... E mais não conto porque vocês não têm nada a ver com o que aconteceu/não aconteceu/podia ter acontecido.

No Tofo concluímos que cada osga tem a sua casa de banho particular; lidámos estoicamente com a falta de água na torneira; apanhámos banhos de sol e alguma chuva; a Joana não viu baleias nem golfinhos, mas viu alforrecas e apanhou um escaldão em alto mar; tivemos lua cheia; comemos marisco; escoamos várias unidades de Manica; sentimos saudades de Pemba e inventámos/planeámos um safari na África do Sul (porque ir a Maputo e não ir ao Kruger é como ir a Maputo e não ir ao Kruger).

O mercado de Inhambane fica a 40 minutos de chapa e pode-se dizer que foi aí que a minha capacidade de regateamento atingiu o seu auge. Saí de lá com duas recordações oferecidas e a ser chamado de irmão por 3 comerciantes com quem negociei. A Joana recusou-se sempre a regatear, no entanto, graças ao finca pé do nosso amigo Armando, quando já estávamos fora do mercado e a caminho da praça dos chapas, eis que surge o comerciante com a peça na mão e disposto a aceitar o preço proposto.

Encarei esta vitoriosa ida ao mercado de Inhambane como um sinal de que já estávamos habilitados para (re)encarar a caótica capital com outros olhos e outra postura.

Desta feita, para terminar o partilha da melhor viagem de sempre, o título do próximo post será  Maputo @ Second Sight.



Nampula, Beira, Vilankulos, Inhambane e Tofo Slideshow: NAR6’s trip to Beira was created with TripAdvisor TripWow!

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