31 de outubro de 2013

Maputo @ second sight

Só à segunda vista porque foram necessárias quase três semanas para anular toda a poeira que os meus olhos carregaram desde Lisboa; porque consegui chegar a esta última etapa dominando o "coro" do "mama/papa"; porque khanimanbo em língua changane significa obrigado; porque consegui desvendar que o melhor de Moçambique é a genuinidade das pessoas e os seus risos francos; porque consegui apreender a versão preta da história branca sobre setas pretas envenenadas que nos atingem neste lado do mundo branco; porque hoje sei que a moçambicanidade vive-se e respira-se mesmo estando longe - a prova disso é que quase um ano depois ainda guardo na mente pormenores que me permitem escrever esta quase-espécie de diário com um sorriso estampado na cara.

O minibus da épica equipa do Capitão Tsubasa entra na região de Maputo sob grande temporal. Não se vê um palmo à frente. A trovoada quase que anuncia o final dos tempos. As estradas estão transformadas em autênticas piscinas. O cheiro de terra molhada  entranha-se em todos os átomos das nossas existências. Os carros acumulam-se em filas aparentemente desordenadas. Os chapas, mesmo os de caixa aberta, circulam lotadissimos. Um grupo de mulheres (que seguem num desses chapas) mete-se com nosso GRANDE motorista e com um grupo de viajantes nórdicas cujo cabelo é cobiçado por algumas dessas mulheres. O mundo está a findar e nós estamos às gargalhadas.

Pouco tempo depois o sol surgiu radiante e convincente.

Maputo é uma cidade caótica. Em hora de ponta, o trânsito é infernal. Todos parecem dirigir-se para o mesmo sítio, mas à hora da chegada és o único gato pingado a chegar. As estradas estão escandalosamente esburacadas. Conduzir ali não é coisa de meninos, no entanto, raramente ouvem-se buzinas. Acredito que há um quase-acordo que se traduz em "quem chegar primeiro passa". Não presenciámos atropelamentos, nem choques frontais/laterais. As passadeiras são meros adereços pintados no esfalto. Se na nossa primeira passagem por Maputo rogámos proteção aos céus antes de atravessar uma estrada, nesta derradeira passagem atravessámos quase sem olhar e no ritmo certo como se o fizéssemos desde sempre. O lixo acumulado fere a vista, mas os caminhos não estão minados com cocó de cão como vemos em Lisboa. Tal como no resto do país, tudo acontece na rua. A cidade tem bastante cultura e a melhor forma de lá chegar é via sola do sapato!

Arquitetonicamente falando, a gerência ultramarina tentou evitar os crimes erros que a construção civil cometeu (e continua a cometer) em Portugal. Mas, se por um lado as principais avenidas são totalmente geométricas e espaçosas, por outro lado essa mesma lucidez  não esteve presente no momento de projectar os edifícios. Os prédios são excessivamente altos... E aquela baía merece uma vista desafogada!

Maputo é uma cidade com um elevado nível de segurança que pode ser medido pelo número de cadeiras de plástico branco que encontramos à entrada de cada edifício. Cada uma dessas peças de mobiliário diz respeito a um segurança/vigilante.

Pessoas, que fique bem claro que apesar de todos os alertas e avisos, e dos guardas a dormir a sesta de plantão em cada porta, em momento algum sentimos insegurança. Circulámos tranquilamente pelas ruas, sem constrangimentos.

Com alguns dias para gastar antes do regresso a Lisboa, "inventámos" uma ida à África do Sul com o objectivo de realizar um self-drive safari no Kruger National Park...

Porque ir a Maputo e não ir ao Kruger Natural Park é como ir a Maputo e não ir ao Kruger National Park!

Foi outra experiência memorável! Logo à entrada do parque, um enorme rinoceronte em passo apressado acompanha a nossa viatura pela esquerda... A minha reacção foi subir o vidro (como se isso me protegesse de um possível ataque!). Zebras, girafas, impalas, elefantes, javalis, hipopótamos, bufalos, gnus, crocodilos,  lagartos, animais-que-só-existem-nos-documentários-sobre-vida-animal, etc ,etc, etc...! Neste contexto, os animais do zoo éramos nós, vulgos visitantes em redomas de vidro.

No regresso a Maputo fiquei com a sensação que em toda a minha vida, só viajei verdadeiramente quando: 1. precisei de um passaporte; 2. encarei várias filas para obter um visto; 3. receei ser barrado ou ser detido pela polícia de fronteira por ser responsável por uma viatura supostamente furtada; 4. e outras situações que ficam entre nós, o Amílcar e a tartaruga amante de alface.

A despedida de Moçambique iniciou-se no Parque dos Continuadores, ao som de Dama do Bling, DJ Ardiles, GPRO FAM e o Verão Amarelo da MCEL que tocou mil e setenta e sete vezes durante as três horas e meia em que foram anunciando Sean Paul...  E terminou no dia seguinte, na final de um concurso de musica moderna acolhido pelo Centro Cultural Franco Moçambicano.

Pessoas, estou prestes a partir novamente para o outro lado do mundo com a certeza de que esta foi a melhor viagem de sempre! Pela forma como não foi planeada e pelo modo como tudo se desenrolou como se tivesse sido delineada ao pormenor.

Em todos os locais por onde passámos conhecemos pessoas que nos mostraram a sua versão do país. 

Há pobreza, mas a riqueza da alma permite a felicidade e o viver em função do dia-a-dia;


Há uma grande preocupação em criar/manter postos de trabalho. Os supermercados têm colaboradores que estão ali apenas para ensacar as compras; Não precisas de sair do carro para abastecer. E entre escolher uma empregada doméstica e uma máquina de lavar há preferência por uma empregada doméstica;

Ninguém é dono das terras, elas são concessionadas a quem as quiser trabalhar;

Nós somos uns sortudos por termos um Estado Social que apoia (bem ou mal) quando as coisas fogem do nosso controlo. A maioria dos moçambicanos não conta com o Estado para rigorosamente nada!

Não sei quando, mas um dia regressarei a Moçambique, farei o percurso inverso (sul -norte) de modo a que Pemba seja merecidamente a cereja no topo do bolo.

Na hora da partida, o que mais pesou na bagagem foi a educação, a simpatia, a gratuitidade com que fomos acolhidos, o ter de partir, a vontade de regressar e o não saber quando é que isso acontecerá.





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